October 5th, 2010

rosas

under the sun



Aproveitei o Domingo, enquanto esperava que o temporal passasse para ir ver o concerto dos U2, para acabar a leitura de Under The Sun, um volume de correspondência de Bruce Chatwin, organizado por Elizabeth Chatwin e Nicholas Shakespeare, respectivamente viúva e biógrafo do autor de Na Patagónia. Gostei bastante do livro, fundamentalmente porque sou fã da literatura de Chatwin, e suponho que este livro se destina sobretudo aos fãs do escritor ou aos estudiosos da sua obra.

O livro dá-nos pistas em relação à obra de Chatwin, ilumina, não tanto os seus livros, mas principalmente os contextos em que apareceram e foram escritos. E, como é óbvio, abre-nos um canal directo sobre a personalidade de Chatwin, sobre a sua genialidade, a inquietude (ou o desassossego, essa restleness que fizeram dele um viajante num sentido do termo que já pouco existe), ou os seus inúmeros talentos (de escritor, mas também de expert em diversas disciplinas artísticas e historiográficas, e até de botânica). Mas também sobre as suas idiossincrasias menos favoráveis: a megalomania, a arte de preferir a lenda quando ela é mais interessante do que a realidade, a relação com o dinheiro (misto de forretíce com desprendimento) e até um talento muito especial para viver à custa dos outros. Aliás, sobre este aspecto, é o próprio Chatwin que confessa, depois de uma tentativa de estudar arqueologia em Edimburgo, que o único interesse de ser arqueólogo é arranjar quem suporte as despesas com as viagens.

Para além disto tudo, que já não seria pouco, Under The Sun, quer pelo próprio Chatwin quer pelo nível dos seus correspondentes, dá-nos ainda um retrato bastante interessante do que foi um certo mundo, ali entre meados das décadas de sessenta e oitenta. O mundo das casas dos leilões, dos jornais ingleses, do meio editorial, mas em geral da arte e da cultura, e até um cheirinho de jet-set internacional. Isto, claro, sem falar do mundo propriamente dito, onde Chatwin se foi perdendo e de onde sempre manteve correspondência, e que incluiu, literalmente, todos os cantos do mundo, da Austrália à América do Sul, de África ao Médio Oriente, com especial ênfase na Índia, de onde provêm algumas das mais ricas cartas constantes no livro.