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chatwin e ray carver
rosas
innersmile
'Há um escritor, de quem acho que nunca falei aqui no innersmile, que foi dos mais importantes na minha formação de leitor. Li-o, de rajada, aí por finais dos anos oitenta, princípios de noventa, e apesar de não ler nada dele há muitos anos, parece que está sempre comigo, como se fosse assim uma espécie de pauta mental com a qual vou confrontando leituras e até experências literárias. Falo do Raymond Carver, um escritor de contos, peças muito secas, quase cruas, fatias afiadas de realidade que nos desabam em cima de uma maneira muitas vezes perturbadora.
Hoje em dia quase que não se fala no Carver, e os seus livros aparecem à venda, um pouco encardidos, naquelas feiras de venda de livros ao desbarato. Mas há um lado da vida humana que só se aprende com os contos do Raymond Carver. O Robert Altman fez um filme, Short Cuts, baseado em alguns contos do Carver. Já vi o filme há muitos anos, e penso que nunca mais o revi. Mas lembro-me de um filme seco como a prosa do Carver, mas não tão desamparado como ela, nem tão lírico, nem tão tristemente belo.'


Tinha já há uns tempos este texto escrito, à espera de oportunidade para o por aqui. Aliás, tinha-o escrito, não o pus logo, e esqueci-me dele. Até ontem, ao ler este trecho de uma carta do Bruce Chatwin, escrita na Índia, em 11 de Março de 1986, e dirigida a um amigo americano.

«(…) Ray Carver has been a favorite of mine since the first collection came out and a girl who, herself, came from Washington State advised me to get them. He really does make most of other American writers look like so much junk. He’s the only one who knows that there is such a thing as prose rhythm, and he has to be the most sensitive observer of the American scene. He’s apparently spawned a troop of imitators, none of them any good. I’m told he’s at work on a big novel, and it’ll be interesting to see.»

É engraçado como estas cartas do Chatwin me trazem tantas referências que foram importantes, algumas mesmo determinantes, para a minha formação. Ao ler estas cartas apetece-me voltar aos livros do Chatwin, aos do Carver, mas apetece-me voltar não só para o reler, mas, como se isso fosse possível, para os tornar a descobrir outra vez. Porque mais do que o prazer da leitura, aquilo de verdadeiramente excitante que os livros nos dão é mesmo a aventura da descoberta.

Quanto à promessa de um romance a que Chatwin se refere, ela nunca se concretizou. Ray Carver morreu em Agosto de 1988, com 50 anos. Seis meses e poucos dias antes da morte do próprio Bruce Chatwin, com 48 anos. Estes dois escritores, ambos do grupo restrito dos meus favoritos, morreram ambos sensivelmente com a mesma idade que tenho agora. E o tempo das suas vidas, apesar de me parecer breve se comparado com o meu (I'm too young to die), foi o suficiente para terem sido ambos tão importantes para mim, quer na formação do meu gosto literário, quer mesmo na construção daquilo que sou e da minha maneira de olhar o mundo, os outros, a vida.