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lanzarote, saramago e alberti
rosas
innersmile
Vou relendo, ao ritmo das viagens de comboio e dos intervalos em que não me apetece pegar nas cartas do Bruce Chatwin (são raros, estes), os Cadernos de Lanzarote, de José Saramago. À procura, ou simplesmente à espera, dos sinais, dos lugares, das referências, ao que na ilha me encantou. Encontrei logo no primeiro volume dos Cadernos, um texto, datado de 21 de Junho de 1993, que contém a passagem a que me referi quando escrevi sobre Timanfaya e a Montanha de Fogo, há precisamente um mês: aquela em que Saramago refere que a Montanha de Fogo é "a excursão obrigatória que nunca ninguém fará como desejaria, isto é, só".

O trecho, escrito a propósito de uma visita de Clara Ferreira Alves a Lanzarote para entrevistar o autor, é um bocadinho irritante. Saramago, com aquele tom agastado de que era capaz, verbera aquilo a que chama "a praga turística", com as suas roupas estapafúrdias e berrantes (expressões dele), presumindo, com arrogância de intelectual, que "estes homens e mulheres, na sua maior parte grosseiros de palavras e de modos (…) se amanhã, depois de terem visto o que viram, notarão alguma mudança na sua maneira de ser e de pensar".

Deploro esta visão dos outros, dessa mole que é a classe média que viaja em pacotes turísticos, como porcos em quem se desperdiçam pérolas. Mas salvam Saramago, neste mesmo texto, duas passagens. A primeira é esta descrição de Timanfaya: "(…) Íamos percorrendo os caminhos labirínticos do parque e se sucediam os vales e as encostas cobertas de cinzas, as caldeiras escancaradas como goelas no interior das quais imagino que o silêncio terá a espessura do próprio tempo". Caramba, isto está tão bem dito, expressa de maneira tão perfeita aquilo que eu senti no passeio pela Montanha de Fogo. Até, ou sobretudo, a referência ao tempo.

Na outra passagem do mesmo texto, e a propósito das camisas berrantes dos turistas, Saramago arrepia a sua opinião desdenhosa ao ler, na Fundação César Manrique, o poema que Rafael Alberti dedicou a Lanzarote, lembrando-se do gosto disparatado do poeta em matéria de camisas. Também li esse poema de Alberti, que está logo à entrada da casa da Fundação. E como Saramago não o transcreve, aqui fica ele.

«LANCELOTE
-primera estrofa-

(a César Manrique, pastor de vientos y volcanes)


Vuelvo a encontrar mi azul,
mi azul y el viento,
mi resplandor,
la luz indestructible
que yo siempre soñé para mi vida.

Aquí están mis rumores,
mis músicas dejadas,
mis palabras primeras mecidas de la espuma,
mi corazón naciendo antes de sus histórias,
tranquilo mar, mar pura sin abismos.

Yo quisiera tal vez morir, morirme,
que es vivir más, en andas de este viento,
fortificar su azul, errante, con el hálito
de mi canción no dicha todavía.

Yo fui, yo fui el cantor de tanta transparencia,
y puedo serlo aún, aunque sangrando,
profundament, vivamente herido,
lleno de tantos muertos que quisieran
revivir en mi voz, acompañándome.

Más no quiero morir, morir aunque lo diga,
porque no muere el mar, aunque se muera.
Mi voz, mi canto, debe acompañaros
más allá, más allá de las edades.

He venido a vosotros para hablaros y veros,
arenales y costas sin fin que no conozco,
dunas de lavas negras,
palmares combatidos, hombres solos,
abrazados de mar y de volcanes.

Subterráneo temblor, irrumpiré hacia el cielo.
Siento que va a habitarme el fuego que os habita.»


- Rafael Alberti, Tahiche, 31-V-1979