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pop dell'arte, nadir afonso, um eléctrico chamado desejo
rosas
innersmile
Belo fim de semana, há muito tempo que não tinha um weekend tão cheio. No Sábado à noite fui a Aveiro, ao Teatro Aveirense, ao concerto dos Pop Dell'Arte de apresentação do disco Contra Mundum. Grande concerto. Nunca tinha visto os PDA ao vivo e são realmente muito bons, muito imaginativos, e muito dançáveis. As canções têm uma qualidade muito pictórica, como se fossem filmes ou mesmo quadros. Claro, o centro das atenções é o João Peste, que apesar do ar frágil mantém intocáveis as suas qualidades de crooner, de estrela maldita. Foram praticamente duas horas de concerto, todas as canções, ou pelo menos todas as de que me lembro.

No Domingo apanhei o comboio e fui à capital, ter com a minha madrinha, que apesar de poder parecer que não pelo tratamento respeitoso, é uma gaja nova e gira. Fomos almoçar ao meu lugar preferido no Chiado, o Kaffeehaus, na Rua Anchieta. Depois do almoço fomos ver a exposição de Nadir Afonso, que tem estado no Museu Nacional de Arte Contemporânea, e que está quase a sair, encerra no próximo fim de semana. Intitula-se Sem Limites, e é uma retrospectiva da obra do pintor (também arquitecto) até ao limiar dos anos 70, quando fica mais ou menos fixado o seu projecto artístico. Nadir Afonso é um dos meus pintores preferidos, dos poucos que sou capaz de identificar e reconhecer, e queria muito ir ver esta exposição. Sou muito sensível ao geometrismo da sua pintura, à influência da arquitectura, aos jogos cromáticos e sobretudo ao festival de perspectiva. Ao fim da tarde esta exposição seria completada com os painéis de azulejo, com temas das grandes cidades do mundo, que Nadir Afonso tem na estação de metro dos Restauradores.

Depois da imprescindível visita à loja da Fnac no Chiado (comprei um livro do Edmund White, Chaos), finalmente a razão da ida a Lisboa: a produção de Um Eléctrico Chamado Desejo, de Tennessee Williams, com encenação do Diogo Infante, no Teatro Nacional D. Maria II. O TW é, paradoxalmente, um dramaturgo difícil, apesar de ser dos mais populares. Talvez essa dificuldade venha de estar muito marcado pela cinefília: o filme de Kazan, desta peça, o Brando e a Vivien Leigh são absolutamente incontornáveis, tal como o são outras adaptações das suas peças, basta lembramo-nos de mais três: Bruscamente no Verão Passado, Cat on a Hot Tin Roof e Sweet Bird of Youth, estas duas últimas com Paul Newman, a primeira com Monty Clift. Mas talvez essa marca venha das próprias peças, do seu excesso de emoções, da sua ligação a uma determinada paisagem americana, do Sul, dos corpos e do efeito neles do calor. De todas as produções de peças do TW que vi, e já foram algumas, só me lembro de uma, precisamente de Sweet Bird of Youth, em que a encenação se conseguia demarcar desse referencial muito marcado.

Esta encenação do Diogo Infante não se consegue libertar dessas referências, e esse começa por ser um ponto a desfavor da peça. As soluções cénicas, os figurinos, a música, sendo fiéis ao universo de Williams (e às didascálias da peça), por serem muito previsíveis, acabam por funcionar como um certo obstáculo à nossa adesão imediata ao universo dramático. Agora, a direcção de actores é excelente, pelo menos no que diz respeito às quatro personagens principais, e isso salva tudo. É pelas personagens e pelas representações que aderimos ao espectáculo, acreditamos nelas, e deixamos que elas nos levam ao fundo da sua maldição. E, entre os actores, Alexandra Lencastre, que compõe uma Blanche de antologia, longe e livre da sombra de Vivien Leigh, mas tão autêntica como ela. Uma emoção enorme, poder estar sentado na plateia e sentir a energia, o poder, uma espécie de vibração eléctrica, de uma actriz (ou de um actor) de imensos e talentosos recursos, e com pleno domínio deles. Uma pena que a Alexandra Lencastre tenha sido tão rara nos palcos nos últimos anos, mas esperemos que este regresso a faça ter vontade de voltar mais vezes.