September 13th, 2010

rosas

ana vidigal

Apanhei ontem bem cedinho um comboio e fui até Lisboa. A ideia era ir à Gulbenkian, antes de ir almoçar com amigos, e soube-me muito bem matar saudades de um lugar que frequentei muito no ano lectivo em que fui estudante na capital. Tomei o pequeno-almoço na cafetaria do CAM, vi uma exposição, e passeei pelo jardim, que estava uma formidável manhã de Verão. Aliás, achei ontem a viagem de Coimbra para Lisboa muito bonita, e acho que isso só se pode ter devido ao facto de a luz, ali entre as 8 e as 9 da manhã, ser tão bonita que contagia a paisagem e tudo o que se vê do comboio: um pequeno monte redondo coberto de árvores, o traço branco de um avião no céu, a mancha escura do voo de um pássaro, um carro a levantar poeira numa estrada de terra batida.

Queria muito ir ver a exposição retrospectiva da Ana Vidigal, Menina Limpa, Menina Suja, no CAM da Gulbenkian. Aqui há uns anos, quando a Câmara Municipal de Coimbra teve um protocolo com Serralves, vi numa colectiva no pavilhão centro de Portugal, no parque verde da cidade, Penélope, uma obra de Vidigal que me marcou imenso: uma cama, coberta com uma colcha feita de sacos plásticos selados contendo cada um deles uma carta das imensas trocadas entre os pais da artista durante o tempo em que o pai serviu na guerra colonial, na Guiné. Uma obra fortíssima, cravada nas memórias mais íntimas de uma infância, e pondo-as em tenso diálogo com a história de um país, com as ruínas de um império e com os indivíduos que ao longo de séculos o suportaram, mas também com a condição feminina, representada na mulher do herói que fica em casa a tecer as malhas da vida enquanto ele parte para a guerra, mas igualmente fazendo da cama (do quarto) o lugar icónico do amor e da solidão, da alegria e da tristeza, do encontro e do abandono.

Esta exposição no CAM era assim a oportunidade de tornar a ver esta peça, mas igualmente de conhecer um pouco mais da obra de Ana Vidigal. A instalação Void causou-me tanto impacto como a obra que eu já conhecia, penso que por lidar com o mesmo tema, o da guerra colonial. Trata-se de uma obra ainda mais pessoal e íntima, que relaciona directamente a infância com a experiência da guerra através do pai ausente, embora não tenha o poder de síntese de Penélope. Enquanto Penélope nos interdita o conteúdo explícito das memórias, em Void mergulhamos fundo nessa intimidade, vêmo-la trabalhada, como se os materiais em que se suporta tivessem sido desmontados e reconstruídos de novo de maneira a criar novos sentidos e novas figurações. Estas duas obras dizem-me muito pessoalmente, sobretudo porque trabalham com duas coisas a que sou sensível: a memória, e as lembranças como forma de contarmos o tempo, de o materializarmos; e a guerra colonial, que vivi de perto precisamente durante o tempo da infância.

Quanto ao resto da exposição, apenas duas ou três notas. A primeira para dizer que o trabalho de Ana Vidigal não é fácil do ponto de vista estético, não é 'bonitinho', e isso exige-nos um esforço maior de adesão e entrega. É sempre mais fácil quando uma obra de arte nos seduz do ponto de vista formal, mas esta falta de vocação para o decorativismo torna mais profícuo e tenso o diálogo com a obra de arte. Outro aspecto significativo é o facto de o trabalho de Ana Vidigal se suportar muito em materiais não nobres, em materiais 'reject' do nosso quotidiano, coisas que caíram em desuso, uma espécie de refugo barato, sem qualquer valor artístico, que lhes é acrescentado precisamente por efeito da sua reciclagem em matéria de arte. Este processo de reciclagem (com aspas fortes) começa por ser a pintura, evolui para a colagem, e numa fase mais recente, parece resultar apenas do próprio acto de 'assemblage'. Outro ponto de evolução parece ser a cada vez maior personalização desses materiais, que começam por ser 'restos' de papelarias e retrosarias e vão ganhando o estatuto de serem objectos de memória, lembranças ou recordações, de carácter pessoal e familiar. Uma nota final para salientar o humor que percorre estes trabalhos, e que se manifesta quer no próprio corpo das obras quer na escolha dos títulos: um humor ora irónico e subtil, ora mais desbragado e provocador, mas que, mais do que um statement artístico parece derivar de um olhar francamente divertido para a vida, a própria e a dos outros. Também por isto, mas de facto por tudo, fiquei fã da Ana Vidigal.