August 31st, 2010

rosas

lanzarote

Para além dos banhos de mar e de sol, e dos eflúvios do 'tudo incluso', aproveitei as férias para conhecer um pouco da ilha de Lanzarote. É incrível como podemos saber tão pouco acerca de um lugar e de como esse lugar se encarrega de nos cativar e deslumbrar. Começo por registar que não peregrinei à casa de José Saramago, em Tias. Companheiros meus de viagem foram lá, visitaram a biblioteca do escritor e espreitaram o jardim da casa, mas, entre a mera curiosidade e a romagem de saudade, não consegui dar-me uma boa razão para lá ir, e por isso deixei-me ficar à beira de água.

Logo de início percebi que estas férias em Lanzarote me iam dar um nome, o de César Manrique. Artista plástico e arquitecto, natural da ilha e nela morto, Manrique distinguiu-se, e é por isso reconhecido, por ter tentado aquilo que não é fácil alcançar: intervir artisticamente sem adulterar, e até reforçando, o que na ilha e na sua paisagem é natural. Comecei por me cativar pelos jugetes de viento, instalações entre o mobile e o catavento que se transformam em esculturas vivas por força do vento. Depois conheci duas das suas obras arquitectónicas mais marcantes: o espaço dos Jameos de Água, e o Restaurante do Diabo, no parque nacional de Timanfaya. Os Jameos são parte de uma das maiores bolhas vulcânicas do norte da ilha, compostas por três enormes naves no interior da rocha. Nelas, Manrique instalou um restaurante, um bar e um auditório, uma piscina artificial, e um centro de investigação vulcânica, com espaço museológico. Uma das naves tem ainda uma espécie de piscina, natural e subterrânea, de água do mar, habitada por minúsculos caranguejos albinos.

Muito perto dos Jameos fica a Cova dos Verdes, um tubo vulcânico com seis ou sete quilómetros, que atravessa a terra e entra mar dentro, e que proporciona uma descida ao interior da rocha. Aqui a intervenção humana reduz-se quase ao mínimo, mesmo a iluminação é escassa, as naves são ligadas por corredores baixos e apertados ou por escadas sinuosas, as paredes são lava petrificada, verdadeiras lições de geologia. A seguir, a caminho de Timanfaya, volta Manrique, e o Monumento al Campesino, em Mozaga.

A entrada no parque nacional de Timanfaya faz-se, de novo, com Manrique, e o restaurante redondo que se combina com outro centro de estudos vulcânicos. Junto ao restaurante fazem-se experiências geológicas, e vê-se o assador, cuja fonte de calor vem de dentro da terra. Depois segue-se uma rota pelo parque, e é das experiências mais intensas que eu já vivi. Um imenso mar de lava, cinza e pedra, crateras abertas, cones perfeitos e alinhados, uma paisagem inóspita e seca, mas nunca desoladora ou triste. Pelo contrário, Timanfaya é de uma beleza exaltante, e para o comum dos mortais o mais próximo que podem experimentar do que seja caminhar na Lua. Creio que num dos seus Cadernos de Lanzarote (tenho de os reler, agora à luz do meu olhar e da minha memória), Saramago lastimava não poder fazer aquilo que Timanfaya exige: percorrê-lo a sós.

Lanzarote é, de certa maneira, Manrique, a obra de Manrique, a ilha e a casa de Manrique. No Taro de Tahiche fica a casa que Manrique construíu e que hoje alberga a sede da fundação que tem o seu nome. Outro deslumbre. Uma casa de dois pisos, construida num rio de lava, e em que o piso subterrâneo se organiza em várias bolhas vulcânicas, que uma intervenção mínima mas decisiva, transformou em salas e quartos e até uma casa de banho. O chão é pintado de um branco intenso, as paredes são rocha negra, a luz entra, jorra, de aberturas naturais no topo das bolhas. A casa funciona como museu, e alberga obras de pintura do autor, livros, projectos e desenhos arquitectónicos, esculturas, objectos, obras de design, para além da colecção de arte privada de Manrique, que incluí, assim de cabeça, dois Picassos e um Miró.

Ao lado do impressionante vulcão La Corona, no norte da ilha, apanha-se o ferry para passar o dia em La Graciosa, uma ilha mais pequena que fica à distância de quinze ou vinte minutos de travessia. Um belo de um passeio. Visitámos o pueblo da ilha, que não tem estradas alcatroadas e cujos únicos automóveis são os jipes para percorrer os trilhos do interior, e de regresso ao barco, passeámos ao longo da costa até fundear numa baíazinha junto a uma praia, para fazer um pouco de praia e almoçar. Os botes levaram os passageiros para a areia, mas claro que foi muito mais divertido saltar para a água da proa levantada do ferry, e nadar até à praia na água de um azul intenso e transparente.

Estas férias em Lanzarote trouxeram-me uma coisa que há tempos não experimentava, que é o fascínio pelas ilhas. Eu gosto muito de passear, de conhecer lugares, e normalmente, quase sempre, deixo-me encantar por eles. Parece sempre que me descubro qualquer coisa de novo quando me ponho nesses lugares estrangeiros. Mas não há muitos lugares onde, como aconteceu agora nesta ilha, eu olhe para eles e sinta uma comovida vontade de lhes chamar casa.