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too drunk to fuck
rosas
innersmile
Sou, como suponho acontecer com grande parte dos homens, nomeadamente dos homossexuais, consumidor de pornografia. Umas vezes ocasional, outras mais frequente, conforme atravesso fases de maior envolvimento afectivo com outras pessoas ou pelo contrário fases mais solitárias. Curiosamente, ou melhor sintomaticamente, a pornografia é uma espécie particular de tabu: não é que não se fale nisso, não é que se finja que não se conhece, mas sobretudo fala-se em pornografia como algo que só acontece aos outros. Os portugueses, para além de quererem sempre ter mais e melhor do que os vizinhos, têm verdadeiro horror à anormalidade social, a tudo o que foge da norma social. E têm uma tendência um pouco arrepiante para diabolizar tudo o que é diferente. Quando esse desvio tem a ver com o quarto, com as questões sexuais, o horror acentua-se. A pornografia na internet é praticamente inevitável, conheço casos em que o acesso casual ao computador de um amigo ou familiar revelou um histórico picante, mas toda a gente faz de conta que tal coisa não existe. Ninguém no seu perfeito juízo ignora que os adolescentes consomem pornografia na net, mas todos olhamos para o tempo que eles passam no computador com um tom complacente e fazemos de conta de que eles passam o tempo todo a fazer pesquisas na wikipedia para os trabalhos escolares.

Uma das coisas que, enquanto consumidor de pornografia, me fazem pensar, são as possibilidades de integrarmos a pornografia no nosso discurso da normalidade. Se este blog fosse psicanalítico eu ocupava-me a escrever acerca dos mecanismos que me fazem obter gratificação através da pornografia. Mas como não é, resta-me pensar nas razões pelas quais não escrevo textos acerca de filmes porno com a mesma desenvoltura com que escrevo sobre outros filmes, ou sobre livros, ou seja lá o que for. De resto é curioso como a massificação dos media e sobretudo a predominância do modelo da reality TV, trouxeram o sexo para a normalidade do discurso público (para o mínimo denominador comum da cultura de massas), com excepção de temas mais incómodos ou mesmo inconvenientes, como a masturbação ou precisamente a pornografia.

Tudo isto vem a propósito de um artigo na edição do Ípsilon de 13 de Agosto sobre o mais recente filme de Christophe Honoré, que pelos vistos (ainda não vi o filme) versa o tema da homossexualidade, e que foi buscar para actor principal François Sagat, uma das estrelas do cinema porno, não só francês, onde começou, mas norte-americano, em cujas produções tem participado. O artigo do Ípsilon, da autoria do jornalista Bruno Horta, inclui uma entrevista por e-mail com o próprio Sagat, e foi esta entrevista que na realidade me pôs a pensar sobre o assunto. Sobretudo porque fala na pornografia sempre com um tom muito casual, como se se estivesse a debater um qualquer tema cultural daqueles que são habitualmente abordados no suplemento do Público. É esta, permita-se-me usar a expressão, dessacralização do discurso sobre a pornografia que me surpreendeu, e que me apeteceu assinalar. Ainda acabo um dia destes a criar uma tag ‘porno’ para determinado tipo de apreciações cinematográficas. Pergunto-me se esses textos teriam mais comentários do que aqueles que merecem os textos sobre livros, por exemplo.

A propósito, e para desanuviar, aqui fica o clip de uma das canções que ando presentemente a ouvir em loop: