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the twin
rosas
innersmile


Já escrevi no innersmile, a propósito do extraordinário discurso do autor quando recebeu o prémio irlandês IMPAC, como encomendei o livro The Twin, de Gerbrand Bakker. Nunca tinha ouvido falar no livro ou no seu autor, não sou propriamente um fã, ou sequer um conhecedor, da literatura neerlandesa, mas houve qualquer coisa no tema do livro que me compeliu a comprá-lo. E, claro, uma coisa assim do domínio da pura intuição não podia esperar muito, de modo que mal recebi o livro comecei a lê-lo, li-o quase todo a semana passada, quando ainda estava a trabalhar e o tempo era mais escasso, terminei-o no primeiro dia de férias.

Como eu disse ao meu mestre Saint Clair num comentário ao texto de que falei acima, o livro aborda vários temas: o envelhecimento e a solidão, a complexidade e a mágoa no seio das relações familiares, sobretudo essa coisa tão especial que é a relação entre irmãos, que no livro são, para mais, gémeos, e um deles morreu jovem. Além disso, o livro passa-se num ambiente rural, dedica uma atenção quase obsessiva às tarefas e aos respectivos tempos e ritmos do trabalho de uma exploração de gado, e é pródigo em observações acerca de bicicletas, patinagem no gelo, da canoagem, e da fauna e da flora em geral.

Helmer, o gémeo cinquentão sobrevivente, vive uma relação difícil, feita de muito remorso e desejo de vingança, com o seu pai moribundo. Houve muitos momentos em que a relação de Helmer com o pai me perturbou imenso, quer pela própria situação de um filho ter de tomar conta do seu pai que está em processo acelerado de degradação, quer sobretudo porque tem uma dose muito grande de crueldade, e eu nunca consegui deixar de projectar muito do que estou neste momento a viver em termos de situação familiar. As únicas companhias de Helmer são uma vizinha e os seus dois filhos, ainda crianças, que o ajudam nalguns trabalhos da quinta, nomeadamente a tomar conta da parelha de burros que Helmer, ao arrepio da vontade do pai, comprou para a quinta, apesar de não servirem rigorosamente para nada.

Um dia Helmer recebe a visita de Riet, a ex-namorada do irmão gémeo morto ainda adolescente, e que tinha sido expulsa da casa pelo pai dos irmãos, que a culpou dessa morte prematura. Como consequência dessa visita, o filho de Riet, um problemático adolescente de 17 anos que tem o mesmo nome do irmão morto, fica uns meses a viver na quinta de Helmer como ajudante, e a relação entre ambos é tudo menos simples.

No dia da morte do pai, Helmer recebe a visita de um antigo ajudante da quinta, ainda do tempo em que o gémeo era vivo, e que nessa altura em que o pai o desprezava, era a única pessoa que valorizava e dava atenção, e até afecto, a Helmer.

Basicamente, é isto que se passa ao longo das páginas do livro. Mas este conjunto de relações complicadas e cheias de angústia, é-nos servido com uma linguagem muito seca, poupada nos adjectivos, escrita na primeira pessoa do singular, e carregada de um humor espantoso, ora terno ora irónico, e muitas vezes tão desconcertante como o discurso de Bakker na cerimónia de Dublin.

Foi um livro que me comoveu imenso, mas que me divertiu ainda mais. Que me fez apaixonar pela personagem, e, coisa que em mim é rara, pelo seu autor, fiquei fascinado por uma pessoa que é capaz de escrever um livro assim tão carregado de emoção e de humor, e sobretudo tão capaz de agarrar os sentimentos, sobretudo os mais complexos e subtis. É, para mim, e até agora, o meu livro do ano.