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rosas
innersmile
O caderno P2, do Público, publicou uma série de reportagens da Alexandra Lucas Coelho sobre o México. A ALC é a melhor repórter a trabalhar com regularidade na imprensa portuguesa, e está dito. Não li todos os artigos desta série, mas tenho esperança que, como já aconteceu outras vezes, eles venham a ser editados em livro. Mas li o artigo de ontem, sobre o Iucatão, e apesar de eu fazer parte da massa de turistas a quem o artigo arreganha um bocado os dentes, a verdade é que o texto da ALC me fez, inevitavelmente, lembrar da minha visita a Mérida, a Chichen Itzá e a Uxmal.

Quando estava a ler o trecho sobre Uxmal lembrei-me logo do espectáculo de luz que vimos à noite, e que, já não sei muito bem porquê nem como, ficou sempre ligado no meu espírito a um sonho sobre naves espaciais, a um céu nocturno cintilante e riscado por imensas naves espaciais. Acho até que já falei disso aqui no innersmile, mas não me apetece muito ir à procura do link. No ficheiro da minha memória, Uxmal é um sonho com extra-terrestres. Mérida são avenidas muito direitas e compridas, boulevards cheios de árvores, e a praça central cheia de grupos de homens e rapazes, à noite, a tocar violão. E Chichen Itzá é a herdade, os mariachis a tocarem Fina Estampa, e a máscara índia que troquei por um relógio, precisamente num dos lugares que ALC menciona para ilustrar a praga do mercado para os turistas.

hidrografia
rosas
innersmile








«HIDROGRAFIA

São belos os nomes dos rios
na velha Europa.
Sena, Danúbio, Reno são
palavras cheias de suaves inflexões,
lembrando em tardes de oiro fino,
frutos e folhas caindo, a tristeza
outoniça dos chorões.
O Guadalquivir carrega em si espadas
de rendilhada prata,
como o Genil ao sol poente,
o sangue de Federico.
E quantas histórias de terror
contam as escuras águas do Reno?
Quantas sagas de epopeia
não arrasta consigo a corrente
do Dniepre?
Quantos sonhos destroçados
navegam com detritos
à superfície do Sena?
Belos como os rios são
os nomes dos rios na velha Europa.
Desvendada, sua beleza flui
sem mistérios.
Todo o mistério reside nos rios
da minha terra.
Toda a beleza secreta e virgem que resta
está nos rios da minha terra.
Toda a poesia oculta é a dos rios
da minha terra.
Os que cansados sabem todas
as histórias do Sena
e do Guadalquivir, do Reno
e do Volga
ignoram a poesia corográfica
dos rios da minha terra.
Vinde acordar
as grossas veias da água grande!
Vinde aprender
os nomes de Uanétze, Mazimechopes,
Massintonto e Sábié.
Vinde escutar a música latejante
das ignoradas veias que mergulham
no vasto, coleante corpo do Incomáti,
O nome melodioso dos rios
da minha terra,
a estranha beleza das suas histórias
e das suas gentes altivas sofrendo
e lutando nas margens do pão e da fome.
Vinde ouvir,
entender o ritmo gigante do Zambeze,
colosso sonolento da planura,
traiçoeiro no bote como o jacaré,
acordando da profundeza epidérmica do sono
para galgar os matos
como cem mil búfalos estrondeantes
de verde espuma demoníaca
espalhando o imenso rosto líquido da morte.
Vede as margens barrentas, carnudas
do Púngoé, a tristeza doce do Umbelúzi,
à hora do anoitecer. Ouvi então o Lúrio,
cujo nome evoca o lírio europeu
e que é lírico em seu manso murmúrio.
Ou o Rovuma acordando exóticas
lembranças de velhos, coloniais
navios de roda revolvendo águas pardacentas,
rolando memórias islâmicas de tráfico e escravatura.»


- Rui Knopfli