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where is the sun
rosas
innersmile
Na segunda-feira da semana passada, abri o computador às oito da manhã e li as novidades do g-reader. Chamou-me a atenção um post do blog Band of Thebes (link), fui conferir os links do post, e passados minutos estava a encomendar o livro na Amazon. Foi-me entregue na sexta-feira, e no Sábado comecei a lê-lo. É incrível, nunca tinha ouvido falar do livro ou do seu autor, mas senti uma atracção muito grande, eu diria mesmo um chamamento, não se desse o caso de eu achar que não há nada de místico nestas coisas. Não consigo dizer o que me apelou mais, se o tema do livro, que me é muito caro, se a entrevista do autor, se os artigos que li, creio que no site do jornal IrishTimes. Mas a verdade é que levo cerca de 100 páginas lidas e estou a adorar.

Ontem à noite andei à procura no YouTube de clips com o Gebrand Bakker, e encontrei apenas uns dois ou três, um deles que já conhecia. Um dos clips contém o discurso que Bakker proferiu na cerimónia de entrega, em Dublin, do prémio Impac, um dos prémios literários que tem maior valor pecuniário, promovido pela municipalidade de Dublin, e que tem uma característica muito universalista. É entregue a livros escritos ou traduzidos em inglês, independentemente da nacionalidade dos seus autores e da língua em que foram publicados originalmente, e assenta numa rede mundial de bibliotecas (entre elas as municipais de Lisboa e Porto), que fazem as propostas de nomeação ao prémio. Este ano, por exemplo, faziam parte da long-list de nomeados, livros de Saramago (a tradução das Intermitências da Morte) e do Agualusa (a tradução de As Mulheres do Meu Pai), tendo o livro de Saramago sido proposto por uma biblioteca de Miami, se não estou em erro.

O discurso de aceitação do prémio do Gebrand Bakker é desconcertante. Por um lado está carregado de ironia, carregadíssimo, mas ao mesmo tempo é completamente honesto, liso e limpo, e de uma extrema e sincera generosidade. Além disso traz para a arena de um prémio literário, alta cultura portanto, o festival da canção da Eurovisão, que é, por excelência, o reino do efémero e irrisório. Acho que se nota isso pela reacção das pessoas, e sobretudo da própria presidente da câmara de Dublin, sentada ao seu lado, que nunca sabe se há-de levar o discurso a sério ou não. Eu levei-o. Acho que foi a forma que uma pessoa tímida e reservada encontrou de enfrentar o foco das atenções, desviando-as para canto. De certa maneira, reconhece-se neste discurso as marcas da escrita de Bakker, o mesmo humor, por vezes subtil por vezes implacável, a delicadeza e a ternura que dedica às personagens, a atenção pelo detalhe, e sobretudo uma maneira muito própria de ser lírico e até pungente sob uma espécie de disfarce de frieza e distância.



Claro que fui fazer os trabalhos de casa e aqui está o clip com a participação da Willeke Alberti, com a canção Waar is de zon, na edição de 1994 do festival da canção da Eurovisão, que, lá está, decorreu em Dublin (Portugal concorreu com a Sara Tavares, com Chamar a Música, que ficou em 8º lugar). Mas a escolha de Gerbrand Bakker de invocar e focalizar o seu discurso na Willeke Alberti e na sua canção do festival, por muito desconcertante que pareça, parece ter uma outra intenção, ainda que seja, mais uma vez, muito subtil. A Willeke Alberti é, na Holanda, e segundo creio, uma espécie de ícone gay, e a canção do festival, segundo li algures, contém referências à Sida. Apesar de não ter encontrado nenhuma referência explícita à homossexualidade, a propósito de Gerbrand Bakker, parece haver por aqui um certo tom queer. Seja como for, e para além do enorme prazer que me está a dar a leitura do livro, estou, é claro, a fazer uma leitura muito cerrada à procura dos sinais.