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the master e henry james
brooklyn
innersmile

Terminei este fim de semana a leitura de The Master, mais um livro do Colm Tóibín, o quarto que li em poucos meses, e o quinto do autor, faltando-me apenas, na ficção, um dos seus primeiros livros, The South. É curioso como já conhecia o Tóibín há muitos anos, tinha lido, espaçadamente, três livros dele (dois romances, um deles que reli agora, e o volume de ensaios biográficos Love in a Dark Time), mas agora, a propósito de Brooklyn, li quatro livros dele de rajada.

Confesso que hesitei muito a leitura deste The Master, sobretudo por causa do tema: o livro é um romance construído sobre a biografia de Henry James, e eu conheço muito mal a obra de James, e as tentativas que tinha feito foram sempre mal-sucedidas. Para mais, e segundo eu tinha lido, este livro, premiadíssimo, recria o ambiente das obras de HJ, mantendo com elas uma relação muito estreita. Aliás, Colm Tóibín refere, em nota final, que utilizou trechos de obras de HJ na sua prosa. O livro não tem aquela fluência e simplicidade de linguagem que costuma ter a escrita de Tóibín, é um livro denso, muito elaborado. Mas é, a todos os títulos, uma obra notável.

Para além de ser uma leitura cruzada e reveladora, no sentido de desvendar, da obra de Henry James, The Master, como se diz em inglês, stands on its own. James é aqui uma verdadeira personagem, e se ajudará à compreensão do livro conhecer o obra de James, a verdade é que podemos, como eu fiz, abordar o livro como uma narrativa que vale por si, completa em si própria. Cada capítulo funciona quase como uma pequena novela, com unidade de acção, mais do que de tempo, já que a narrativa é rica em envios no tempo, mas estes flashbacks não são utilizados para fazer render o aspecto biográfico mas sim para explicar, ou dar sentido, ou, melhor: para completar o que está a ser abordado no tempo da narrativa. Várias personagens vão aparecendo, familiares, amigos e outras pessoas com quem Henry James privou, e o livro de Tóibín vive sempre de uma espécie de tensão entre a maneira como James geriu essas relações e a maneira como as utilizou como matéria para as suas próprias obras.

O que ressalta, no final, e como nas outras obras de Tóibín, é o retrato de uma solidão, neste caso particular de um homem do seu tempo, culto e viajado, e da relação que teve com o mundo e com os outros, que sempre foi mais contemplativa e de reflexão, do que interactiva. Um homem reservado, tímido, de uma sensibilidade vibrátil, que sempre escolheu resguardar-se do mundo, e que utilizou a literatura, o seu modo de vida, como uma desculpa para essa reserva e para essa distância. Os trechos do livro referentes à guerra da secessão norte-americana são particularmente eloquentes. Segundo filho de uma família de quatro irmão e uma irmã, Henry James viu os seus dois irmãos mais novos alistarem-se ao lado dos unionistas, e serem gravemente feridos em batalhas importantes do conflito. Henry James optou por não se alistar, e Tóibín trata de uma forma muito profunda, mas muito subtil, nada explícita, essa recusa em participar na guerra, deixando-a permanecer numa zona sombria ali entre o que pode ter sido uma opção de vida ou apenas um acto de cobardia.

O celibato é um dos aspectos mais controversos da vida de Henry James, havendo biógrafos que defendem que James nunca conheceu o amor carnal. Mais uma vez Colm Tóibín trata o assunto com delicadeza. Não há no livro nenhum episódio físico, nem sequer propriamente aquilo que hoje se chamaria uma relação afectiva, mas há emoções, há desejos que vibram e reverberam, há latências e atracções. Claro que a Tóibín, sendo um autor assumidamente homossexual e que utiliza a homossexualidade como matéria narrativa (embora sem fazer propriamente literatura temática, ou de género), interessam particularmente os casos em que essa atracção tem por objecto outros homens.


Entretanto, e como espécie de leitura complementar ao livro de Colm Tóibín, li A Fera na Selva, uma novela de Henry James (obrigado, Zé), e é de facto muito interessante perceber como o livro de Tóibín vive tanto a escrita de James. Para mais quando conseguimos identificar no livro do Tóibín os trechos onde esta novela é invocada, apesar de nunca ser nomeada (são, apesar de tudo, poucas as referências expressas a obras de Henry James no livro de Tóibín).

A Fera na Selva conta a história da relação entre um homem e uma mulher, ou para ser mais franco, entre uma mulher que espera que o homem se decida, e o homem que não se decide porque está sempre à espera que algo aconteça. E é quando o homem perde irremediavelmente a mulher, que percebe que foi precisamente o facto de ter sempre estado à espera que alguma coisa acontecesse que impediu que de facto acontecesse alguma coisa. Agora o que é impressionante é a maneira como James e implacável em relação ao seu personagem, como o vai entretendo ao longo da narrativa para depois o estraçalhar no final. Como disse o Zé numa imagem muito feliz, o homem passa vida a olhar para um tronco de árvore tratando-o como se fosse um velho tronco apodrecido e oco, para no fim constatar que afinal o tronco era uma anaconda (a fera na selva) que, uma vez acordada, o vai devorar.