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todos os dias
rosas
innersmile
Tenho a impressão de que quando eu comecei a trabalhar, ele já estava aposentado. Mas comparecia todos os dias, dava a sua volta, conferia, inspeccionava. Fazia reparos, dava sugestões, por vezes fazia queixas. Sempre com delicadeza, mas também com a firmeza que lhe vinha de um inexcedível amor. Tirava dúvidas. Contava histórias, umas verdadeiras, outras já tingidas pela lenda. Sabia as datas, os nomes, as cronologias, mesmo quando por vezes as trocava. Vi-o envelhecer, dia a dia. Arrastando a perna, arrastando penas, carregando postais, e carregando neles o orgulho do passado, e de um nome que não trazia. Recortes, cartas, papeís, velhas fotografias, que colava em grossos cadernos de capas duras. O seu livro.

Agora, foi desaparecendo aos poucos, saíndo dos nossos dias e dos nossos lugares. Mas ainda oiço a sua voz, interpelando-me. Quer-me contar uma coisa, chamar-me a atenção. Apenas conversar um bocadinho, ou só fazer uma pergunta. Oiço-a distintamente, ainda habituada a uma certa firmeza, mas já um pouco pouco tropeçada, e marcada pelo mimo da velhice. Emociona-se, os olhos enchem-se de lágrimas, mas o olhar é directo através da água. Sacode com a mão a comoção, abana um pouco a cabeça, aperta-me a mão, e seguímos cada um o seu caminho. Há nesses olhos molhados o subtil perfil de um segredo. Era um homem de alegrias simples e quotidianas, mas trazia sempre consigo a sombra entristecida de um segredo. Morreu ontem. Foi hoje a enterrar