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A CHUVA

Na última noite que passaram em KL, Mr. Cham levou-os a jantar a um restaurante chinês, comer caranguejos picantes e lulas fritas. Eram sete à mesa. Para além deles os dois, estavam Bárbara, Steven, o americano por quem Bárbara estava apaixonada, um casal de chineses em que a rapariga tinha sido aluna de Bárbara, além do próprio Mr. Cham. O restaurante era um enorme recinto sem paredes, coberto com placas de plástico ondulado, e a meio ficavam os tanques com os peixes e os mariscos vivos.

Durante a primeira semana que passaram na Malásia, choveu todos os dias às três da tarde. Em ponto. Na segunda semana, a hora da chuva era um pouco irregular. Na terceira começou a chover mais do que uma vez por dia, uma delas por volta das nove da noite. Era uma chuva intensa, torrencial, apesar de durar poucos minutos, acompanhada de trovoadas violentas. Quando começou a chover o barulho da água a bater com força nas placas do tecto era ensurdecedor, e parecia que todo o recinto se ia desfazer, mas Mr. Champ continuava impávido a preparar copos de chá gelado que distribuía pelos restantes comensais. O chá vinha para a mesa em enormes bules de porcelana, a ferver, juntamente com um balde de plástico cheio de cubos de gelo e um açucareiro enorme, que se servia com uma colher de sopa.

Ele estava triste por ser a última noite, apesar de a viagem ter corrido mal quase desde o primeiro dia. A mala que chegou aberta e partida tinha sido um mau presságio. Bárbara ficou em pânico quando viu a mala assim, e nunca mais abandonou a ideia de que alguém a tinha rebentado para colocar droga lá dentro, e o tráfico de droga é, na Malásia, um crime punido com a morte. Quando chegaram ao apartamento dela, obrigou-os a esvaziar a mala, revistou-a e no fim foi pô-la lá em baixo, junto aos contentores do lixo. Mas o pior veio a seguir. Num crescendo, Bárbara começou a tomar atitudes em relação a eles cada vez mais estranhas, provocando grandes discussões a propósito dos pretextos mais irrelevantes, e que redundavam em amargas trocas de acusações. Havia sempre um clima de áspera tensão no ar, que apenas se dissipava quando lá fora começava a chover torrencialmente e vinham os três para a varanda observar a chuva a cair com força no relvado em redor do prédio e nas árvores que o delimitavam.

No fim do jantar, Mr. Champ deixou-os, aos três e a Steven, junto à portaria de um hotel. Bárbara tinha-lhe pedido para os deixarem num determinado hotel, que ficava no centro da cidade, mas Mr Champ disse que não podia àquela hora ir ao centro de KL e por isso tinha de os deixar num sítio onde pudessem apanhar um táxi com facilidade. Combinaram o encontro para o dia seguinte, para Mr. Champ os levar ao aeroporto, e ficaram, sentindo-se um pouco desamparados, na portaria exterior de um hotel junto a uma avenida larga e deserta de uma das cidades satélites de KL. Por esta altura ele tinha de fazer um esforço considerável para controlar a vontade de desatar a bater em Bárbara, mas procurou disfarçar, nomeadamente por causa da presença de Steven. Não queria perder o ar descontraído em frente ao Steven, por quem sentia uma certa atracção.

Finalmente meteram-se os quatro num táxi e foram para o centro de KL, para Bukit Bintang, à procura de um bar que passasse salsa. Conseguiram entrar dentro do bar de um dos hotéis da zona, mas um dos porteiros veio-lhes pedir que saíssem, porque ele trazia sandálias e era política do bar que os clientes tinham de estar calçados adequadamente. Bárbara começou a discutir com o porteiro, um homem corpulento, que olhava para ela procurando não evidenciar nenhuma emoção, mas que traía o desprezo com que um leão olha para para uma mosca que o incomoda. Ele sentia-se desconfortável com esse olhar e só queria que Bárbara se calasse e que eles saíssem rapidamente para poder deixar de o sentir. No meio da enorme irritação que o tomava, toda dirigida a Bárbara, não conseguiu evitar uma certa compaixão por ela, por ser vítima, para mais inocente, de um olhar carregado de um desprezo tão assassino.

Andaram um pouco a pé, mas mesmo em plena zona turística de KL, não havia ninguém nas ruas. Os bares e os restaurantes estavam cheios de clientes jovens, em grupos ou em casais elegantes, os lobbies dos hotéis estavam cheios de turistas acabados de chegar em excursões de autocarros pullman, mas as ruas continuavam desertas de peões, apesar da fila constante de automóveis. Apanharam de novo um táxi, e no percurso de regresso a casa, ele veio sempre com a cabeça encostada ao vidro da porta, os olhos para o alto, à procura dos topos iluminados das torres Petronas.

No dia seguinte, na sala de espera do aeroporto, ele sentou-se num sofá a ouvir música e a tomar notas num caderno, enquanto ela foi à casa de banho e correr as lojas do duty free. Os conflitos com Bárbara pesavam-lhe nas pálpebras, como se tivesse passado muitas horas a chorar. Mas o que lhe dominava o espírito era um certo sentimento de esmagamento por causa do tamanho gigantesco da cidade de KL. Isso, e as ondas de choque emocionais de uma conversa que os dois, ele e ela, tinham tido na sala de pequenos-almoços deserta, no último piso de um YMCA de Singapura, uma semana antes de chegarem à Malásia.
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