?

Log in

No account? Create an account

percursos de magia
rosas
innersmile
Leio, no livro em que Luís Amorim de Sousa retratou Alberto de Lacerda:

«Invariavelmente marcávamos um encontro, frequentemente à porta de Bush House, actualizávamos todas as novidades, e retomávamos os nossos velhos percursos de magia: a ponte de Waterloo, o Royal Festival Hall, a Hungerford Bridge, Trafalgar Square, e a National Gallery, e ao lado a National Portrait Gallery e Cecil Court e as livrarias de Charing Cross e mais para cima, as ruazinhas e as lojas em torno do Museu Britânico, e o museu, também, naturalmente. E Chelsea, é claro. Havia sempre ocasião de ir a Chelsea.»

Sou capaz, de memória, de reconstruir todos estes passeios. Estes nomes, estes lugares, fazem parte da minha mais profunda, sentida e pungente memória da cidade de Londres. Estão ligados à fase da minha vida em que eu não era um turista em Londres, mas um rapaz em pausa, à espera do futuro. A começar pela própria Bush House, onde fui muitas vezes ter com uma das minhas grandes amigas de Londres. Umas vezes almoçávamos lá, no refeitório do pessoal, outras subíamos um pouco e íamos almoçar ao mercado de Convent Garden.

A Hungerford Bridge é uma ponte ferroviária com passagem pedonal, e que eu atravessei muitas vezes, para fazer a ligação entre a estação de metro de Embankment e o South Bank, onde fica o Royal Festival Hall, o National Theatre e o National Film Theatre. Noutro ponto do relato, LAS fala de uma carta que recebeu de Alberto de Lacerda, e que foi escrita no café do NFT, que fica por baixo da ponte de Waterloo. O café tem uma esplanada onde passei muitas horas, e em frente à esplanada há umas bancas de livros em segunda mão. Esta zona do South Bank é das minhas preferidas em Londres, sempre foi, quer para, de passagem, ir para os teatros ou para os concertos, quer mesmo só para passear, para ver os skaters por baixo do RFH, para ir aos cafés das salas de espectáculo, ou para estar sentado na rua, nos bancos públicos, no muro junto ao rio.

Muitas vezes, para me tirar de casa, a minha mãe preparava sanduíches e íamos de autocarro (no 73?), Gower Street abaixo, até ao Museu Britânico. Dava-mos uma volta pequena por uma das salas do museu e vínhamos cá para fora, para os bancos de madeira do pátio vasto, comer a nossa merenda.

E Chelsea, havia sempre ocasiões de ir a Chelsea. Em Chelsea ficava um dos hospitais. Em Kings Road, numa praceta fechada 'off Kings Road', morava outra das minhas amigas de Londres. Kinks Road e Sloane Square fazem parte da memória do primeiro dia que passei em Londres, do dia em que fui pela primeira vez ao médico e depois vim para casa dessa amiga, jantar, antes de regressar ao Hotel (que ficava, hélàs, em Gower Street, muito próximo do Museu Britânico).

Tenho tantas saudades de Londres que me dói, que me agonia. Quando penso em Londres, quando me ponho a percorrer, de olhos fechados, as ruas, as lojas, as casas, os bairros, todos os lugares, fico reduzido a uma espécie de buraco negro de mágoa e de felicidade, um ponto onde convergem todas as emoções. Há 7 anos que não vou a Londres, e durante 20 anos acho que não houve nenhum ano em que não tenha lá ido. Tenho tantas saudades, tantas saudades da cidade e de tudo o que lá vivi, que acho que nunca as hei-de conseguir matar.