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em louvor
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Luís Amorim de Sousa foi amigo dilecto do poeta Alberto de Lacerda ao longo de toda a vida que ambos partilharam, desde que se conheceram em Londres, ali na troca dos anos 50 para os 60. Quando Alberto de Lacerda morreu, LAS, na qualidade de natural curador do espólio, negociou com a Fundação Mário Soares a recepção da colecção de arte do poeta. Do evoluir do trabalho de catalogação dessas colecções, foram já produzidas exposições, foi publicado um catálogo de uma dessas exposições, e agora, numa edição conjunta da Fundação e da editora Assírio & Alvim, começou a ser publicada uma colecção dedicada a Alberto de Lacerda, sob orientação de Luís Amorim de Sousa. Dos três volumes já editados, já li dois.

O Pajem Formidável dos Indícios reúne poemas de Alberto de Lacerda escritos entre 1995 e 1997, os anos do regresso definitivo a Londres, depois de vinte anos em que a vida de Lacerda se dividiu entre as temporadas lectivas em universidades americanas e os períodos de defeso na capital inglesa. São, como a generalidade da obra de AdL, na sua maioria poemas curtos, breves, de versos como traços sensíveis e subtis a sublinhar a exaltação dos dias. Há um certo tom celebratório do regresso a Londres, mas há também a angústia de um regresso à solidão. De certo modo, é como se o lugar do exílio, que outrora fora acolhedor e entusiasmante, se tornasse ele próprio um exílio. Se estes poemas não acrescentam nada de muito essencial a quem conhece a obra de Lacerda, não podem deixar de ser mais uma oportunidade de ler os versos como se se contemplasse a cabeça luminosa e exaltante de quem os escreveu.

Luís Amorim de Sousa é também poeta e, além disso, autor de alguma memorialística muito interessante. Crónica dos Dias Tesos, Londres & Companhia (ambos sobre a experiência londrina) e Os Espinhos da Micaia (sobre a breve vivência moçambicana, na adolescência), são exemplos dessa veia para o relato das memórias, onde a capacidade evocativa se conjuga com uma determinante atenção ao detalhe, e com uma linguagem simples, leve e muito fluida. Às Sete no Sa Tortuga é um retrato, não apenas de Alberto de Lacerda, como se anuncia em subtítulo, mas sobretudo de uma amizade, das cumplicidades e das partilhas de que ela foi feita, e dos sentimentos profundos e intensos que a cimentaram. Pelas suas riquíssimas páginas passam as histórias e as anedotas que Amorim de Sousa viveu com Alberto de Lacerda, passam todos os nomes determinantes da cultura e das artes com quem Lacerda privou, passam os principais marcos de uma biografia, e passa uma tentativa de estabelecer um efectivo retrato do Poeta, mais espiritual do que psicológico, mas que, como possivelmente seria inevitável, resulta um pouco esquivo e diáfano. Ainda bem, se calhar: esse mistério é também condimento essencial para continuarmos a amar a poesia de Alberto de Lacerda.