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a canção de zefanias
rosas
innersmile

O escritor moçambicano Luís Carlos Patraquim, que tem crescida e segura obra poética, tenta o romance, com A Canção de Zefanias Sforza. Não é romance qualquer, é uma tentativa de escrever, vá lá, uma canção, dedicada aos trinta e picos anos de existência do país Moçambique, através das andanças e desventuras de uma personagem, mulato descendente de italiano, que, por essa condição mas também por indomabilidade de espírito, é sempre mais um passageiro involuntário da marcha da história do que um seu protagonista. Como todos nós, é claro, ou pelo menos a maioria de nós. Essa condição de ‘estranho’ ao processo revolucionário, permite a Zefanias vivê-lo, e sofrê-lo, na dupla condição de quem precisa de se conformar à ordem dominante, mas com a distância, pelo menos íntima, que lhe permite brincar com coisas sérias.

São perigosos os caminhos da literatura programática, mas Patraquim assina um livro notável, divertido e irresistível, mercê, principalmente, de dois méritos. O primeiro é a própria personagem de Zefanias Sforza, maior mesmo do que o romance que lhe dá vida. Tão bem apanhado, e insuflado com um sopro vital tão poderoso, Zefanias é daquelas personagens em quem acreditamos de forma inabalável, e que seguimos cegamente. É Zefanias quem permite a Luís Carlos Patraquim sobreviver às armadilhas de quem pretende usar a novelesca para fazer ensaio, e que permite ao livro sobreviver à relativa falta de peripécias.

O outro enorme mérito do livro é a linguagem. Luís Carlos Patraquim é um poeta exuberante na escrita, mas grave e sério no sentido. Essa exuberância, neste romance, é toda invocada para criar um texto vivo, rico, imaginativo, delicioso como as iguarias preparadas pela mãe de Augusto, e moçambicano até ao tutano do osso. Há no livro um tom de oralidade que só se consegue através de um domínio muito grande da escrita, e que ficará de ora em diante como um exemplo perfeito do que pode ser uma voz narrativa distintamente moçambicana.