July 8th, 2010

rosas

just kids, patti e robert



Acabei de ler esta noite, aproveitando a falta de sono das noites abrasivas, Just Kids, uma memória que Patti Smith escreveu sobre a sua relação com Robert Mapplethorpe. Adorei o livro, e, de tal maneira ele me comoveu, até tenho dificuldade em racionalizar porquê. No primeiro capítulo Patti conta brevemente o que foi a sua vida antes de conhecer Robert e sobretudo o trajecto que a levou até ele. E depois assistimos, através das suas palavras, ao que foi essa relação, a matéria de que foi feita. O relato de Patti não ilide os factos e as circunstâncias, mas focaliza-se essencialmente no seu crescimento, como pessoas e como artistas, e de como esse crescimento juntos os ligou para sempre. O que é mais comovente no livro é perceber a forma que tomou (ou as formas que foi tomando) esse amor que ligou os dois durante mais de vinte anos, desde que tinham ambos 19 anos, até à morte de Mapplethorpe, em 1989, mesmo quando as circunstâncias, todas as circunstâncias, se alteraram, e algumas delas de maneira muito radical. E se o livro é um memória biográfica, é igualmente uma invocação, uma elegia, exposta mas ao mesmo tempo delicada, assumida mas subtil, intensa mas apaziguada.

Claro que para além deste aspecto mais íntimo, Just Kids funciona ainda, inevitavelmente, como um relato de época, e de um tempo e de um lugar tão interessantes como eram Nova Iorque ali no final dos anos 60 e nos anos 70, com epicentros tão simbólicos como o Hotel Chelsea ou o clube Max's Kansas City, entre muitos, muitíssimos outros. E apesar de praticamente todos os nomes que contaram passarem pelas suas páginas, nunca o livro de Patti Smith se assemelha sequer com uma espécie de who's who da cena nova-iorquina. De resto o livro conta histórias, mas é esparso em anedotas.

No documentário Dream of Life (que estou a ver como actividade relacionada com o livro, e de que voltarei a falar um dia destes) há um trecho em que Patti Smith, a entrar para um elevador, comenta que não gosta quando lhe perguntam como é que se sente por ser um ícone do rock'n roll, e que sempre lhe apetece responder 'como o Mount Rushmore'! Mas a verdade é que não deixa de ser impressionante este relato de Patti Smith também por isso, por nos dar uma versão íntima e quase desvalorizante daquilo que era, que estava a ser, de facto, o nascimento de dois ícones maiores da cultura e da arte da segunda metade do século passado.