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a seita tem um radar
rosas
innersmile
Diz-se que os homossexuais têm uma espécie de radar, o famoso gaydar, que permite a um gay reconhecer outro que esteja nas imediações (ou como cantava um supergrupo português, 'a seita tem um radar, que apanha tudo no ar'). É engraçado pensar numa tal ideia, de que há uma espécie de sexto sentido. Mas claro que a explicação é muito mais proverbial: a repressão e a censura social obrigam os homossexuais a uma contenção e reserva que reforça a atenção aos sinais que anunciam qualquer hipótese de contacto, por mais subtis que sejam esses sinais e por mais efémeras que sejam as hipóteses.

E a prova de que o gaydar não vem instalado de série, como o cruise control nos automóveis (trocadilho intencional), é que eu acho que o meu gaydar é um bocado defeituoso e tem um sinal fraco. Não tenho essa habilidade subtil de detectar os outros gays na sala. Quer dizer, claro que há ocasiões em que funciona, mas de um modo geral sou bastante desatento a essas coisas. Mas no que toca à literatura, talvez fruto do treino, já tenho um gaydar razoavelmente desenvolvido, que já me fez, bastantes vezes, pegar num livro e numa rápida folheadela, perceber que o livro tem temática homossexual. Mas no que ele é realmente bom nem é a detectar o tema, mas a perceber, através de aspectos subtis da linguagem ou da narrativa, a orientação sexual de quem escreve. Já houve autores em relação aos quais eu tinha a certeza absoluta de que tinham de ser homossexuais muito antes de o saber de fonte limpa.

A última vez que isso me aconteceu foi, recentemente, em relação ao V.S. Naipual. Note-se, Naipaul não é propriamente um homossexual, é até conhecido pelas relações que manteve ou mantém com mulheres. Como já referi aqui há dias, depois de ler Num País Livre andei a pesquisar sobre Naipaul e percebi que ele tem uma sexualidade disfuncional, que se traduz designadamente nas relações abusivas que teve com as mulheres da sua vida. É certo que num dos contos do livro há uma personagem de um homossexual inglês, e que esse facto é explicitamente referido. Mas há mais qualquer coisa no livro, qualquer coisa de mais subtil e impressivo, uma atenção particular ao universo masculino, um olhar que se demora mais nos corpos dos homens. Percebemos como, de certa forma, Naipaul é mais fascinado, mais envolvido, mas também mais perplexo, com o universo masculino do que com o feminino. O que a biografia de Naipaul nos diz é que houve episódios, na sua infância, de abuso sexual por parte de um tio, e que, de modo geral, há ou houve alguma irresolução em termos de orientação sexual. Mas ter lido isto, apenas confirmou, mas também confirmou apenas em parte, a impressão que tive ao ler o livro. E essa foi de que estava a ler um livro efectivamente escrito por um homossexual.

as afilhadas
rosas
innersmile
A Orquídea


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