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o caso de natália
rosas
innersmile
Conheci o nome de Natália de Andrade, como julgo que a grande maioria dos portugueses, por causa das brincadeiras do Herman José, creio que no programa Roda da Sorte, em que ele se fartava de cantar a Canção Verde. Confesso que nunca achei piada, nem pelo excesso nem pelo ridículo, ao canto desafinado e estridente de Natália. Mas sempre senti uma certa espécie de fascínio pela personagem. Sou por feitio um tipo tímido e reservado, e não há para um tímido medo mais poderoso do que o do ridículo. Quando vejo alguém que parece ser completamente destituído de sentido de ridículo, não consigo deixar de sentir esse fascínio, feito, confesso, tanto de admiração como de comiseração e de repulsa.

Li, por isso, com interesse um artigo que saiu na edição de domingo da revista Pública (disponível no site do jornal Público) precisamente sobre a Natália de Andrade. No artigo, que está sério e interessante, a jornalista tenta o ensaio biográfico, e junta-lhe uma pitada de psicologia e outra de análise sociológica, quer enquanto fenómeno de culto pelo potencial humorístico, quer no quadro de um conjunto de cantoras que conseguem, normalmente pelo dinheiro, suplantar a falta de talento e de sentido de auto-crítica com a desesperada determinação de serem divas da ópera. Mas há um apontamento no texto, da autoria do musicólogo Rui Vieira Nery, que refere, a certa altura, uma "história triste e injusta" e a "utilização vergonhosa de um caso clínico". E isto chamou-me a atenção, precisamente por vir ao encontro do que eu sempre pensei, ou seja que teria de haver um distúrbio grave de personalidade,da ordem da patologia, a justificar um comportamento como o de Natália de Andrade.

Comove-me, naturalmente, mais do que me diverte, a situação de alguém que na busca de um sonho não se inibe de dar o corpo às balas, fragilizando-se na exposição de uma total ausência de sentido de ridículo. Mas o que senti ao ler o texto, e o que sinto agora quando, na reacção ao artigo do Público, me deparo com fotos e gravações e até clips de video, é a agonia de ver alguém que por ser doente, é usada como bizarria circense. A dignidade de cada um de nós, sobretudo dos mais frágeis e desprotegidos, é o último e o mais essencial dos bastiões. Rirmo-nos com os outros, é uma coisa; rirmo-nos à custa dos outros é outra, completamente diferente. A humilhação, mesmo quando parece leve e humorada, está sempre para lá dos limites do suportável.
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