June 29th, 2010

rosas

num país livre



Já há muito tempo que eu tinha vontade de conhecer a obra de V.S. Naipaul, mas nunca tinha acontecido. Finalmente li um livro dele, Num País Livre, e adorei. Apesar de se apresentar na capa como um romance (com a indicação que não compreendi de ser suportado em duas narrativas), o livro é mais um conjunto de contos, variáveis em dimensão, sendo que o maior dá o título ao volume. São três as narrativas: na primeira seguimos o destino de um cozinheiro indiano que é levado pelo patrão, de Bombaim, para Washington, quando é ali colocado em trabalho. Foi a minha história preferida, fiquei fascinado com o Santosh. A segunda passa-se em Inglaterra e acompanhamos o percurso de um natural das Índias Ocidentais (e não asiático, como se refere na badana) para assistir ao casamento do irmão, e que nos vai contando a sua história e a da família, primeiro na ilha caribenha natal, e depois em Londres. A terceira, Num País Livre, acompanha a viagem de carro de dois ingleses através de um país da África Oriental em clima de guerra civil. O livro é de 1971, e esta história respira muito do que foi o fim da presença colonial inglesa em África. A abrir e a fechar o livro, dois textos curtos, identificados como páginas de um diário, o primeiro sobre uma viagem de barco pelo Mediterrâneo, da Grécia para Alexandria, e o epílogo, sobre uma estadia no Cairo e em Luxor.


Todas estas narrativas são histórias de exílio e deslocamento, de isolamento e desenraizamento, mas são sobretudo histórias de solidão, de quando não podemos contar com mais do que o nosso frágil 'eu' para conseguir manter a cabeça fora da água. Mas não estamos a falar de uma literatura depressiva, ou mesmo triste. A escrita de Naipaul é seca e contida, mas tem uma certa exuberância, é muito geográfica, pelo menos neste livro, muito aberta aos espaços e aos lugares, atenta aos pormenores e com uma capacidade espantosa de revelar a alma das personagens. E todos sabemos como em literatura a alma das personagens é sempre um reflexo da alma de quem está a ler. Por outro lado há uma candura, não tanto no olhar que a narrativa deita às personagens, mas no próprio olhar destas, na maneira como vêem o mundo, simultâneamente um lugar simples e misterioso, de realização pessoal mas também de uma certa violência, que pode ser apenas imanente, ameaçadora, mas que também pode explodir numa escaramuça militar à beira da estrada, ou na maneira como é tratado um maltrapilho.

Acabei de ler o livro e pus-me à procura de coisas sobre V.S. Naipaul na net. Acabei por dar com uma polémica em torno da publicação de uma biografia autorizada sobre o escritor, que revelou aspectos medonhos da sua personalidade, nomeadamente na forma como ele se relacionou com as duas mulheres da sua vida, aquela com quem esteve casado durante mais de 40 anos, e que tratava com desprezo e humilhação, e uma outra de quem foi amante durante mais de 25, e com quem manteve uma relação de violência e abuso sexual. Naipaul abandonou estas duas mulheres (aquela com quem foi casado, de facto esperou que ela morresse vítima de cancro, e fez uma festa no dia do funeral) para casar com uma outra, paquistanesa, com quem continua casado. Este último casamento significou igualmente uma ruptura com muitos dos seus amigos, um deles o escritor Paul Theroux, de que sou um leitor fervoroso, e que acabou por escrever uma memória sobre a relação de amizade que durou 30 anos e que acabou em acrimónia. Naipaul sai deste retrato como um ser desprezível, mesmo para mim, que não sou um tipo particularmente melindroso em relação a este tipo de falhas de carácter. Mas o facto é que gostei tanto do livro que estou com vontade de ler outros do autor, e não é propriamente a primeira vez que adoro os livros de alguém que na vida real não é exactamente recomendável.