June 27th, 2010

rosas

adopção

Não gostei nada de uma entrevista na edição de hoje do Público com o presidente do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida (link). Não gostei das suas posições sobre o aborto, não gostei da forma subtil, ou nem tanto subtil como isso, como ele força argumentos para defender as suas posições, a maneira como não as assume claramente, e antes as disfarça sob um manto pseudo-científico. Não gostei da forma como a entrevista não disfarça uma certa arrogância que os médicos têm no poder da medicina. Não gostei sobretudo da modo como argumenta contra a adopção por casais homossexuais, e do tom de denúncia que usa para, lá está, denunciar que muitos homossexuais não referem o facto de viverem em casal para poderem adoptar singularmente.

Admito que é um assunto acerca do qual se possam ter dúvidas. Mas, sobretudo para quem assume funções de muita responsabilidade em matérias sensíveis como são as que ocupam o Conselho Nacional de Ética, a prudência, a cautela, e uma certa contenção nos argumentos, deveriam ser as pedras de toque. Mas sobretudo o que me irritou na entrevista foi mais uma vez constatar que quando falamos de ética estamos quase sempre a falar de moral, ou melhor da moral dominante, e que no caso português, é conservadora para não dizer reaccionária. E paroquial, ainda que a entrevista evite cautelosamente referir a religião e os seus valores.

A propósito, chamo a atenção para um post de hoje no blog A Natureza do Mal (link). O autor do texto, Luís Januário, comenta declarações, que eu não conheço, do bastonário da Ordem dos Advogados justamente a propósito da adopção por casais homossexuais. O argumento do bastonário, pelo menos no pedacinho citado, é um bom exemplo de como, mais uma vez, as pessoas falam, não daquilo que sabem, sequer fruto de uma tentativa de reflexão séria sobre o tema, mas do que é fruto da sua mentalidade, da sua maneira de olhar o mundo, de ideias feitas, de preconceitos, com que se habituaram a categorizar a realidade. Luís Januário chama a atenção precisamente da falibilidade dos argumentos naturalistas, chamando a atenção de que se a história do homem mostra alguma coisa, é a de que tem sido a luta contra o poder da natureza, dando o exemplo justamente do direito.