June 22nd, 2010

brooklyn

a rebel hand

Quando aqui há dias falei do livro The Heather Blazing, de Colm Tóibín, referi que o livro tem um plano político, consubstanciado nas ligações do protagonista, o juiz Eamon Redmond, ao Fianna Fáil. Aliás o seu nome próprio é uma homenagem a Eamon De Valera, fundador do partido, herói maior do nacionalismo irlandês, tendo sido várias vezes primeiro-ministro da república.

O livro decorre no Co. Wexford, no sul da Irlanda, num eixo que liga duas cidades, Enniscorthy, a cidade natal de Tóibín, e Wexford. Este condado foi palco de uma das mais célebres rebeliões irlandesas, em 1798, quando, um pouco por toda a Irlanda, rebentaram focos de violência contra o ocupante britânico, levados a cabo por republicanos inspirados nas revoluções francesa e americana. Foi precisamente na região de Wexford que esta rebelião teve maior expressão, onde um grupo de milícias, agrupadas e chefiadas por um padre, John Murphy, conseguiu algumas vitórias significativas contra os yeomen ingleses. A reacção inglesa foi violenta, e as milícias acabaram por ser derrotadas. O padre Murphy foi preso e condenado num tribunal militar por traição. Foi torturado, enforcado, esquartejado, os seus restos mortais incendiados num barril de alcatrão, e a cabeça espetada num pau para servir de exemplo.

Voltando ao livro de Tóibín, Eamon é ainda adolescente quando faz o seu primeiro discurso num comício do Fianna Fáil, em Enniscorthy. Do palco do salão onde discursa, Eamon vê, através da porta aberta, o monumento ao Father Murphy, cuja história é contada numa balada irlandesa, intitulada Boolavogue. O terceiro verso da primeira quadra da canção refere "a rebel hand that set the heather blazing", e foi precisamente a este verso que Colm Tóibín foi buscar o título do seu romance.



«At Boolavogue as the sun was setting
O'er the bright May meadows of Shelmalier
A rebel hand set the heather blazing
and brought the neighbours from far and near

Then Father Murphy from old Kilcormack
Spurred up the rock with a warning cry:
"Arm! Arm!" he cried, "For I've come to lead you
for Ireland's freedom we'll fight or die!"

He lead us on against the coming soldiers
And the cowardly Yeomen we put to flight
'Twas at the Harrow the boys of Wexford
Showed Bookey's regiment how men could fight

Look out for hirelings, King George of England
Search every kingdom where breathes a slave
For Father Murphy of County Wexford
Sweeps o'er the land like a mighty wave

We took Camolin and Enniscorthy
And Wexford storming drove out our foes
'Twas at Slieve Coilte our pikes were reeking
With the crimson blood of the beaten Yeos

At Tubberneering and Ballyellis
Full many a Hessian lay in his gore
Ah! Father Murphy had aid come over
The Green Flag floated from shore to shore!

At Vinegar Hill, O'er the pleasant Slaney
Our heroes vainly stood back to back
and the Yeos at Tullow took Father Murphy
and burnt his body upon a rack

God grant you glory, brave Father Murphy
And open Heaven to all your men
the cause that called you may call tomorrow
in another fight for the Green again»


Escolhi esta versão da canção porque me pareceu mais trdicional, e porque o clip tem imagens da história da rebelião de 1798. Mas no YouTube há muitas outras versões da canção, entre elas úma lindíssima dos Dubliners (link), que é um pecado não ouvir, até porque tem um tin whistle logo a abrir que nos deixa arrepiados.