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antecipo a sombra
rosas
innersmile
«A esta mesma hora, naquele segundo andar da Rua de Santa Catarina, Ricardo Reis tenta escrever um poema a Marcenda, para que amanhã não se diga que Marcenda passou em vão, Saudoso já deste verão que vejo, lágrimas para as flores dele emprego na lembrança invertida de quando hei-de perdê-las, esta ficará sendo a primeira parte da ode, até aqui ninguém adivinharia de que Marcenda se vai falar, embora se saiba que muitas vezes começamos a falar de horizonte porque é o mais curto caminho para chegar ao coração. Meia hora depois, ou uma hora, ou quantas, que o tempo, neste fazer de versos, se detém ou precipita, ganhou forma e sentido o corpo intermédio, não é sequer o lamento que parecera, apenas o sábio saber do que não tem remédio, Transpostos os postais irreparáveis de cada ano, me antecipo a sombra em que hei-de errar, sem flores, no abismo rumoroso. Dorme toda a cidade na madrugada, por inúteis, não há já quem os veja, se apagaram os projectores da estátua de Camões, Fernando Pessoa regressou a casa, dizendo, Já cheguei, avó, e é neste momento que o poema se completa, difícil, com um ponto e vírgula metido a desprazer, que bem vimos como Ricardo Reis lutou com ele, não o queria aqui, mas ficou, adivinhemos onde, para termos também parte na obra, E colho a rosa porque a sorte manda. Marcenda, guardo-a, murche-se comigo antes que com a curva diurna da ampla terra. Deitou-se Ricardo Reis vestido na cama, a mão esquerda pousada sobre a folha de papel, se adormecido passasse do sono para a morte, julgariam que é o seu testamento, a última vontade, a carta do adeus, e não poderiam saber o que seja, mesmo tendo-a lido, porque este nome de Marcendanão o usam mulheres, são palavras doutro mundo, doutro lugar, femininos mas de raça gerúndia, como Blimunda, por exemplo, que é nome à espera de mulher que o use, para Marcenda, ao menos, já se encontrou, mas vive longe.»

- José Saramago, O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS


Nos livros de José Saramago estão verdades essenciais acerca da natureza humana e da sua aventura, e é isso, e a possibilidade de crescermos quando lemos os seus livros, que o tornava um grande escritor universal. Mas era o domínio da linguagem (a literatura é 70% de linguagem, dizia, como a água no corpo humano), o português irrepreensível mas indomavelmente livre, a ironia aguda e o humor um pouco triste, o gozo das palavras, era tudo isso que tornava o exercício de ler os seus livros um imenso prazer. Escritor grande, portanto, universal, e divertido. Mas Saramago era ainda um escritor que merecia um enorme respeito, porque se punha homem em cada livro, em cada frase. Não fazem sentido, parece-me, aqueles que ensaiam distinguir o homem do escritor: este era grande, nobelizado, importante, o homem seria pequeno, comunista, ateu, polémico, iberista. Saramago era quem era inteiro («sê todo em cada coisa»), e a maneira desabrida como se expunha nos seus livros, ou melhor: como expunha o essencial de si, é que dá aos seus livros o tamanho do homem, de qualquer homem. Porque eles eram, afinal, a medida do homem que os escreveu.

A mim, pessoalmente, Saramago deu-me os livros que dele li. Sobretudo dois, O Ano da Morte de Ricardo Reis, um livro que adoro, que leio e releio, que não pára de me encantar e ensinar, e o Ensaio Sobre a Cegueira, onde, creio, Saramago fez aquilo que é mais difícil um ser humano fazer: criar uma parábola tão poderosa que, para parafrasear Camões, se liberta da morte de quem a criou.

Mas além disso, Saramago deu-me uma outra coisa que para mim foi tão poderosa e importante quanto os seus livros, e que foi o seu debate violento e íntimo, e intimamente violento, com deus e com as religiões. Não só as questões que Saramago punha, mas os exactos termos em que o fazia, ajudaram-me muito a discutir comigo próprio essas questões. Não me deram respostas, mas ajudaram-me a formular e a perceber as perguntas. Sinto a questão religiosa de Saramago, tão decisiva que ocupou vários dos seus livros, como se fosse minha, e devo-lhe isso.


«Saudoso já deste Verão que vejo.
Lágrimas para as flores dele emprego
Na lembrança invertida
De quando hei-de perdê-las.
Transpostos os portais irreparáveis
De cada ano, me antecipo a sombra
Em que hei-de errar, sem flores,
No abismo rumoroso.
E colho a rosa porque a sorte manda.
Marcenda, guardo-a; murche-se comigo
Antes que com a curva
Diurna da ampla terra.»


- Ricardo Reis, ODE