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the heather blazing
brooklyn
innersmile


A propósito das leituras de Brooklyn e A História da Noite, lembrei-me de que tinha em casa um outro livro do Colm Tóibín, The Heather Blazing, que tinha comprado há alguns anos, numa edição em inglês, e que nunca tinha lido. Claro que aproveitei para o ler, e é incrível que cada vez que leio um livro de Tóibín, o acho melhor do que os outros todos. É de facto em escritor excepcional, com uma linguagem muito simples, sem complicações ou adornos, mas que tem a capacidade de nos transportar até ao coração das personagens. Há trechos deste livro tão intensos do ponto de vista emocional que um tipo tem de parar de ler um bocadinho para se recompôr, e fazer um esforço sério para não transportar para si próprio aquilo que está a ler.

The Heather Blazing é a história de um juiz irlandês, à beira da reforma, que tem de lidar com trágicos acontecimentos pessoais, presentes e passados, e tentar perceber como é que esses acontecimentos lhe moldaram a vida e a personalidade. A narrativa salta de um tempo para outro, percorrendo a maior parte da vida de Eamon, mas a falta de linearidade nunca nos faz sentir perdidos na história. É sempre claro o momento e as circunstâncias da vida de Eamon que estamos a acompanhar, e sobretudo o modo como ele as está a viver. Esse insight para a alma das personagens, para as suas emoções e sentimentos, é um dos mais notáveis trunfos de Tóibín, sobretudo porque ele nunca o faz de modo enunciativo, tudo decorre da maneira como o escritor descreve o que está a acontecer, com uma obsessiva atenção aos detalhes. Na entrevista que deu ao Ipsílon, na sexta-feira passada a propósito de Brookyn, Tóibín abordou a maneira rigorosa como a narrativa se focaliza na personagem principal, comparando-a com a possibilidade de estar sentado a uma mesa e olhar apenas para o guardanapo, construindo todo o livro através desse olhar concentrado. Neste aspecto, The Heather Blazing não tem o aprumo de Brooklyn, embora não se podendo dizer que haja derivações ou divagações que prejudiquem a economia da narrativa. Mas o livro convoca referências, nomeadamente à política irlandesa (Eamon é um activista do Fianna Fáil, havendo uma insinuação de que a sua carreira profissional pode ter sido abençoada por amizades influentes) e à sua história política. O livro passa-se na região de Wexford, em Enniscorthy (a terra natal de Tóibín, e onde se passam outros dos seus romances, como o Navio-Farol de Blackwater e a parte irlandesa de Brooklyn), e são invocados episódios da luta pela independência passados na região, como a rebelião de 1798, e o envolvimento no célebre Easter Rising de 1916. Aliás a ligação do livro a Wexford não se faz apenas através deste elemento histórico, muito pelo contrário; há uma ligação quase orgância entre a narrativa e a geografia do local, que funciona como contraponto não tanto dos eventos, mas da vida emocional de Eamon. Com efeito, como pano de fundo do romance está a lenta erosão da zona da costa onde se situa o romance; por enquanto a casa dos Cullens, que Eamon comprou como habitação de férias, ainda tem a separá-la da linha de mar uma zona de campo, mas a erosão avança, e o desmoronamento da casa, como já sucedeu com outras, vizinhas, é só uma questão de tempo (há um trecho admirável em que um sobrinho de Eamon, cuja casa já foi vítima da erosão, está sentado, calmamente a ler o jornal, no que resta da sala cujas paredes já foram arrastadas pelo mar).

Com este The Heather Blazing, tenho lidos quatro dos seis romances que Colm Tóibín escreveu até agora: falta-me o primeiro, The South, e o mais famoso, The Master, sobre o escritor Henry James. Este está traduzido em português, mas quero ver se o leio em inglês, pois há de facto um ganho em ler a prosa original de Tóibín, que é magnífica. Falta-me igualmente ler dele um volume de contos, bem como os livros de não-ficção que escreveu (ensaios, viagens), ele que foi jornalista, antes de se dedicar inteiramente à escrita; apenas li um livro de ensaios biográficos, Love in a Dark Time, sobre a vida e as questões identitárias de alguns homossexuais famosos.
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cadê você
rosas
innersmile
Stop the press. Até nova ordem, este é o clip mais bonito de sempre do YouTube. Como é que eu nunca me tinha cruzado com ele antes?! É tão lindo que até dá vontade de chorar. A Adriana está linda linda, e o Renato Russo nem se fala. Uma voz fabulosa a cantar uma canção extraordinária... Cala-te, pá. Cala-te e ouve o clip outra vez.

«meu amor, cadê você, eu acordei, não tem ninguém ao lado»