June 8th, 2010

rosas

3 livros sobre moçambique

Três livros lidos recentemente que têm em comum a história recente de Moçambique e o processo que levou à sua independência. São por isso, e inevitavelmente, também assuntos que dizem respeito a Portugal, e que nessa medida nos interessam a todos.


O livro de José Milhazes é, na minha opinião, o mais fraco dos três, nomeadamente ao nível da escrita e da organização do texto. Começa logo por um equívoco: muito mais do que o título, é o subtítulo que faz jus ao conteúdo do livro, e, de resto, é nele que se deposita o seu maior interesse. José Milhazes traça um panorama elucidativo do que foi a relação da URSS com África, em particular com o movimento nacionalista e independentista, especialmente com os movimentos de libertação das ex-colónias portuguesas. A particularidade é que esse retrato é feito a partir da própria URSS, ou melhor dos documentos e das perspectivas dos soviéticos (oficiais e jornalísticas), e isso dá-nos um insight precioso de como os soviéticos viam aquela parte do mundo. Há um aspecto muito curioso, se bem que marginal. Eu sou do tempo em que a linguagem pesada e burocrática dos soviéticos fazia parte do dia a dia, tive a vivência de Moçambique pós-independência, quando se pretendeu instalar uma sociedade socialista e se mimetizavam os tiques da máquina soviética. É engraçado olhar agora para expressões que eram habituais e que caíram em desuso, como o Presidente do Presidium do Soviete Supremo. Cobertas já pela poeira da história, expressões como esta parecem mais fazer parte de uma ficção pós império da Guerra das Estrelas, do que propriamente de uma coisa que de facto tenhamos vivido.

Voltando ao livro, todo o texto que se refere ao período pós-colonial é igualmente muito interessante, porque nos mostra de que matéria foi feita a relação entre a URSS e os novos países independentes, particularmente Moçambique. E sempre, como referi, a partir do ponto de vista dos soviéticos, que constituíram as fontes do autor. E quanto à morte de Samora? Embora sendo o pretexto para esta edição, é de facto a parte menos interessante do livro, ao ponto de quase ser dispensável. Traz poucas coisas de novo, e o que traz não é muito convincente, nem se estrutura de forma suficientemente sólida que sustente a teoria, ou pelo menos a opinião, ou a convicção de Milhazes, e que é, já agora, a de que o acidente foi o produto de uma série de erros grosseiros cometidos pela tripulação. Não tenho propriamente uma convicção pessoal em relação ao assunto, mas como digo, nem a evidência me parece suficientemente sólida, nem, sobretudo, está estruturada em termos de formar uma teoria que se apresente como válida no debate que rodeia a morte de Samora Machel e as circunstâncias trágicas em que aconteceu.


Dalila Cabrita Mateus e Álvaro Mateus constituem uma dupla de investigadores com vasta obra publicada, centrada no passado colonial português e nos processos de independência das ex-colónias de Portugal. Há cerca de dois anos gerou bastante polémica Purga em Angola, que eu não li, o livro que editaram sobre os acontecimentos relacionados com o dia 27 de Maio de 1977, uma espécie de noite das facas longas do regime angolano, e que provocou milhares de mortos, e de presos que foram sujeitos a torturas.

Nacionalistas de Moçambique é um volume breve que reúne dez biografias abreviadas de protagonistas do nacionalismo moçambicano, ligados ou não de forma expressa e assumida com os movimentos de libertação, mas que, em comum, têm o terem-se oposto ao regime colonial. A primeira qualidade do livro é a escolha dos biografados não ser a óbvia, ou seja de fora estão os mais óbvios heróis da independência moçambicana. Dito isto, e no que me diz pessoalmente respeito, alguns dos nomes aqui focados constituíram uma revelação, enquanto outros, que já conhecia, viram aclarados aspectos decisivos das suas biografias políticas.


Uma monumental biografia política é o que se pode dizer de Eduardo Mondlane - Um Homem a Abater, da autoria de José Manuel Duarte de Jesus. O autor é um antigo diplomata, e o livro constitui a tese do doutoramento que fez em relações internacionais. Trata-se de um volume de grande folêgo, que não se desvia do escopo de caracterizar o biografado do ponto de vista da sua personalidade política: um académico e diplomata, com relações privilegiadas com as mais importantes potências ocidentais, que abraçou a luta pela independência de Moçambique por um imperativo de justiça e de dignidade. O retrato que o autor traça de Mondlane recusa a mitificação, e embora contenha uma inegável generosidade em relação à figura humanista de Mondlane, não deixa de contextualizar a sua acção política, nomeadamente no que toca às contradições de que essa acção foi vítima. Mondlane morreu em circunstâncias muito trágicas, vítima de um atentado à bomba (disfarçada numa encomenda postal que continha um livro), e a autoria quer moral quer material do atentado nunca foi esclarecida. O livro organiza as várias hipóteses na perspectiva muito interessante de quem tinha mais a ganhar com o atentado. Diga-se em abono da verdade que nunca é feita uma tentativa de limpeza do papel do Estado português, directamente, através da Pide, ou de outras forças, cuja participação no atentado parece pelo menos plausível.
Eduardo Pitta publicou no Público, e no seu blog Da Literatura, um esclarecedor artigo sobre o livro e sobre Mondlane. Como não vale a pena repetir o que já foi tão bem dito, aqui fica o link para esse artigo (link).