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les herbes folles (ervas daninhas)
rosas
innersmile
Fui ver Les Herbes Folles, de Alain Resnais. Não é dispiciendo dizer que Resnais é um octogenário quase nonagenário, porque este filme tem uma frescura e um humor, uma leveza, que realmente só um tipo com muitos anos de mundo é capaz de ter. Tratando-se de uma farsa, não faz muito sentido apontar ao filme fragilidades como uma certa inverossimilhança ou a falta de uma coerência moral que sustente história e personagens. Antes pelo contrário, fazem parte da essência do jogo quer uma certa atracção pelo inesperado, pelo desconcertante, e é um daqueles casos em que a falta de uma ética ou de um comportamento moral dá aos personagens mais espessura e definição. Esta força imanente das personagens é das impressões mais fortes que o filme provoca, são personagens muito marcadas, muito definidas, mesmo quando não as compreendemos muito bem, mesmo quando os seus comportamentos são erráticos e inconsequentes. Acreditar nas personagens é, assim, a primeira qualidade do filme de Resnais.

Mas é sobretudo ao nível da narrativa que o filme se excede. Os recursos são quase infinitos, quase que há uma solução diferente para cada passo do argumento, a imaginação parece não ter limites, mas é tudo feito com tanta segurança que mal nos apercebemos como o filme é volátil. O plano, sobretudo a fixação das cores, o cromatismo, é excitante (no sentido de exhilarating). A música dá elegância e fluidez. Mas os diálogos, ó deuses, poderíamos estar horas a ouvir aquelas personagens a falar umas com as outras, a dizer futilidades ou a trocar golpes letais, quase na mesma frase, numa espécie de voo sobre o abismo, um voo muito acrobático, cheio de floreados, mas caramba, o abismo está mesmo ali por baixo dos pés deles e eles continuam a falar, a trocar 'plaisanteries', a fazerem fosquinhas uns aos outros.

Outra característica do filme são as constantes referências ao cinema, num registo que será não tanto o da cinefília (tipo a la Tarantino), mas mais uma espécie de catálogo das soluções,ou mais propriamente dos artifícios (porque esta é outra palavra essencial para se desfrutar bem do filme de Resnais) que o cinema disponibiliza, desde o falso final com o beijo hollywoodiano até ao encontro entre Marguerite e Georges sob a égide de uma sala de cinema onde passam reprises de velhos filmes de guerra (no caso, As Pontes de Toko-Ri, com William Holden e Grace Kelly em destaque no marquee).
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