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a história da noite
brooklyn
innersmile


É incrível, lembrava-me de que o livro tinha tido um tremendo impacto em mim, que a personagem principal era homossexual e que a história do livro girava muito à volta disso, lembrava-me que o livro se passava na Argentina, achava, erroneamente, que Richard, a personagem principal, era inglês, que havia ligações à política, nomeadamente à política externa norte-americana. Sobretudo lembrava-me de o livro me ter arrebatado, de ter mexido muito comigo, sobretudo, acho eu, por girar muito à volta das relações sentimentais entre homossexuais.

Mas, apesar de tudo, lembrava-me pouco e mal do livro, e embalado pela leitura de Brooklyn, e por essa impressão forte que eu retinha do livro, decidi reler A História da Noite, de Colm Tóibín. E é incrível, porque não me lembrava nada da história, li-o com uma sensação estranha de estar a reler um livro e de o estar a ler pela primeira vez. E uma coisa estranha, tinha a ideia de que no livro havia certos desenvolvimentos narrativos, que havia determinadas passagens ou contextos, que pura e simplesmente não existem no livro! Será que li um outro livro na altura e a minha memória baralhou as histórias?

Bem, se afinal a lembrança que eu tinha do livro era precária e confusa, a sua releitura revelou-se uma experiência muito boa. É de facto um livro excepcional, e se da primeira vez o que eu tinha retido era sobretudo a questão da homossexualidade, agora percebi muito melhor a narrativa do Colm Tóibín, inclusivamente o facto de ter lido o Brooklyn ajudou, porque o que marcou esta releitura foi sobretudo a profundidade e a precisão com que Tóibín escreve sobre sentimentos e emoções, fazendo-o sempre focando-se na personagem e nos desenvolvimentos da história. Tóibín fala-nos, sempre com um tom matter-of-fact, quase coloquial, das andanças das personagens, das conversas que vão mantendo, das suas acções, das suas hesitações. E é nessa espécie de detalhar do quotidiano que ele vai inscrevendo tudo o que é decisivo e importante, e tudo o que nos faz estabelecer pontes com a matéria do livro.

A parte final do livro é fabulosa. Tal como acontece com Brooklyn, Colm Tóibín fecha a narrativa de um modo perfeito, sem todavia resolver a história. Todas as hipóteses, de facto todo o destino das personagens permanece em aberto, mas o que acabámos de ler contém aquilo que é essencial que saibamos. O que neste livro é excepcional é como o final é tão pacífico e reconciliador precisamente quando se desenrola a mais terrível das tragédias. Alucinante.
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