May 26th, 2010

brooklyn

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Brooklyn, da autoria do escritor irlandês Colm Tóibín já está editado em Portugal, mas tive a sorte de encontrar, semanas atrás, o livro à venda numa edição da Penguin. E tive sorte porque foi um regalo ler o livro em inglês. Eu já tinha lido outros livros de Tóibín, nomeadamente dois romances e Love in Dark Times, uma colecção de ensaios biográficos sobre personalidades homossexuais cuja obra de alguma maneira aborda questões identitárias. Quanto aos romances, duas leituras extraordinárias e que dão a exacta medida do talento e do universo temático de Colm Tóibín. A História da Noite é a história de um jovem argentino descendente de ingleses que tenta perceber a vida e o sexo na Argentina de início dos anos 80, entre o surgimento da SIDA e a guerra das Malvinas. O outro romance, O Farol de Blackwater, é um melhores livros que eu li, uma história de perda e reconciliação, passada no seio de uma família maioritariamente feminina que vive numa pequena aldeia no sul da Irlanda.

A zona de Wexford volta a ser o cenário de Brooklyn que, resumidamente, conta a história de uma rapariga que aceita emigrar para os Estados Unidos, adaptando-se a um novo estilo de vida, e que tem de regressar por razões trágicas à Irlanda. Não é um romance com um enredo muito rico, cheio de peripécias, mas é, para além do melhor livro de Tóbín que eu li, um livro verdadeiramente extraordinário. Desde logo porque o autor é um mestre da escrita, que usa o poder manipulador da linguagem para criar no leitor emoções e estados de alma. A prosa é muito simples, despida e depurada, e sempre muito concentrada, sem divagações ou floreios. Mas as frases são tão bem construídas, tão perfeitas do ponto de vista da sintaxe, que um tipo começa a ler e é pura e simplesmente transportado, ao colo, sem tocar com os pés no chão, através das frases, dos parágrafos, das páginas.

Como disse, o livro não é rico em peripécias, mas graças à narrativa e à linguagem, leva-nos ao coração dos sentimentos de Eilis, a personagem principal, aos seus dramas pessoais, até à dinâmica da sua personalidade, à maneira como lida com aquilo que a vida e os dias lhe trazem. Quando damos por nós estamos completamente embrenhados na vida e na psicologia de Eilis, e a ler o livro quase como se estivessemos a vivê-la, de tal modo são reais as observações, os dilemas, os problemas, as opções, as decisões, e é tão sugestiva a maneira como nos podemos relacionar com eles. A leitura torna-se quase obsessivamente imparável, e sentimos como se fossem nossas, as suas hesitações, sobretudo as que encaminham Eilis para a grande decisão com que o livro termina e que de alguma maneira enuncia o seu futuro.