May 24th, 2010

rosas

io sono l'amore

Io Sono L'Amore, de Luca Guadagnino é o melhor filme que vimos desde há algum tempo e, muito provavelmente, o melhor que vamos poder ver durante mais algum. É mesmo um filme extraordinário, sobretudo porque é muito cinema, muito muito, está impregnado de cinema (ok, e também um bocadinho de ópera). Nada no filme, digamos naquilo que o compõe, é muito original. Temos sempre a percepção de que já vimos aquilo em qualquer sítio, mas isso é porque o filme está cheio de referências, não tanto a filmes, naquele sentido em que se poderia dizer que determinada sequência cita determinado filme, não nesse sentido, mas porque o filme é muito clássico, veste, com um rigor de alta-costura, os códigos de género, quer dizer, os códigos do melodrama, seja ele na leitura de Hollywood (facção Sirk) seja na versão europeia, nomeadamente do próprio cinema italiano.

A mais, o filme é obsessivo com os detalhes, e todos sabemos como deus está nos pormenores. Os planos são rigorosos, muito compostos, construídos, e as sequências são coreografadas com a meticulosidade da dança (ou da ópera, lá está). Esta perfeição de mecanismo de relógio não torna o filme gelado, porque o mesmo rigor obsessivo é posto no tabuleiro das emoções e dos sentimentos, na maneira como o drama de vai desenrolando e desvendando, e como, daquela maneira súbita como as coisas anunciadas finalmente chegam, a tragédia se instala. Mas o que é fabuloso no filme de Guadagnino é que nada disto nos é contado, não tem a ver tanto com as peripécias do enredo, embora sejam sempre elas que nos conduzem, e é sempre pela história e pelas personagens que vamos. Mas o que é fabuloso, dizia, é que se nada nos é contado, tudo nos é mostrado, tudo está na imagem, quer naquilo que nos é mostrado (por exemplo, Emma a enrolar a fita da prenda do avô na sequência do jantar inicial) quer na maneira como nos é mostrado (por exemplo, a vertigem da câmara quando se arrasta, normalmente em movimento ascendente, à procura de qualquer coisa, de uma personagem, de uma sequência, de um decór). Aquela pureza de que falava ao início tem a ver com isto, com o facto de o motor da narrativa do filme ser sempre a câmara, mesmo quando o filme não resiste à tentação (e ainda bem) de ser literário.

Há duas coisas que contribuem para que o filme seja superlativo. Uma é, obviamente, a Tilda Swinton, que se vê bem que foi a actriz para quem a personagem de Emma e todo o filme à volta dela, foi construído. Não naquele sentido em que às vezes se diz que um filme é um veículo para um determinado actor, mas mais no sentido de que tudo no filme nasce a partir da actriz que veste a personagem. Tudo é feito para vir dela, como se um filme só fosse possível (e como é, sempre, ou deveria sempre ser) se brotasse assim do corpo e do rosto de um actor, ou se se escrevesse nele.

O outro aspecto magnífico do filme é a casa, a Villa Recchi. Um palacete que me fez lembrar muito a casa de Serralves, o mesmo estilo (ali entre a arte nova e o modernismo, já com um toque da grandeza teatral da arquitectura fascista), as portas, as escadarias, as lajes de pedras nobres, os painéis das paredes. A casa dos Recchi é tanto uma personagem do filme como Emma, e é com um prazer quase luxuriante (para não dizer mesmo erótico) que a câmara vai descobrindo a casa, os compartimentos, os corredores, os jardins, as perspectivas, as tomadas de vista, os motivos decorativos e os próprios móveis e objectos de decoração, tudo nesta casa merece o olhar de gourmet (metáfora intencional, obviamente) com que a câmara olha salões e saletas, casas de jantar e átrios de entrada, até a cozinha e as casas de banho. Io Sono L'Amore é também um filme de arquitectura, não só (mas muito) pela maneira como torna a casa numa personagem do filme, mas como está sempre à procura dos espaços e da maneira como eles podem interferir (ou mais propriamente, intervir) com o drama das personagens: o Duomo, as ruas de San Remo, e, claro, o campo, a emprestar sensualidade bucólica à consumação de um amor proibido (Lady Chatterley, anyone?)

Só para referência futura, e para o caso de alguém estar interessado na informação, a casa onde o filme foi filmado fica no centro de Milão, pertencia a duas irmãs da alta burguesia milanesa (a mesma que é retratada no filme), e, de acordo com o site do NYTimes, chama-se Villa Necchi Campiglio.