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promulgação indigesta
rosas
innersmile
Não sei se ache mais deplorável ou mais divertido, o ar contrariado do presidente da república ontem à noite, quando lia o discurso da promulgação do diploma que permite o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo. Um poço de contradições e iniquidades, que mostram bem a falta de preparação cívica e de sentido de estado do presidente. Cavaco é um parolo, sempre o foi e nunca conseguiu disfarçar, e ontem mostrou-o mais uma vez. Como é que alguém, para mais com as elevadíssimas responsabilidades que o Cavaco tem, para mais assumindo uma trincheira conservadora e reclamando-se da moral católica, como ficou bem demonstrado pela beatíce presidencial na recente visita papal, como é que alguém assim enuncia um determinada posição de consciência e a seguir diz que, em nome da crise e dos desempregados, sacrifica a sua consciência (atenção: cristã!, ou seja daquelas que dão direito a arder para sempre no inferno) em nome do pragmatismo de não querer levantar ondas?! Não é isto o relativismo que a igreja tanto se empenha em criticar e combater? Sacrificar os valores e os princípios em que se acredita por razões de conjuntura económica?!

Não nos enganemos, Cavaco não promulgou o diploma para evitar clivagens e distracções em momento de crise. Mentira! Cavaco promulgou o diploma porque está em pré-campanha eleitoral e, para usar uma imagem que ele próprio criou, não está nada interessado em tirar os ovos do cesto e dispersá-los pelo galinheiro. Na sua mente tacanha e provinciana, o presidente achou que se passasse três quartos da comunicação a defender o veto com os argumentos mais retrógrados e reaccionários que se possam imaginar, agradaria ao eleitorado conservador e às isildas pegado da paróquia. E se, no fim, pusesse um ar compungido e promulgasse a lei, as bichas bloquistas e socráticas ficavam tão histéricas que nem se lembravam que as primeiras três quartas partes do discurso tinham sido a defender que elas não têm os mesmo direitos da maioria dita normal.

E pronto, foi isto que aconteceu ontem à noite a meio do telejornal. O palácio de Belém metido na travessa do Possolo. Manha no lugar de sentido de estado. Salva-se essa circunstância bonita de o diploma ter sido promulgado no dia mundial contra a homofobia, e de Portugal, mau grado o seu presidente, ser creio que o oitavo país do mundo a reconhecer legalmente um direito que, não tenho dúvidas, o futuro reserva a todos os cidadãos do mundo (mesmo, diria eu, aos homossexuais desempregados que, pobrezinhos, ficam ali na terra de ninguém da consciência presidencial).
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