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Terminei este Domingo, entre o sol das esplanadas do primeiro dia a sério de Primavera que a cidade conheceu, o livro Veneza, da autoria da escritora de viagens inglesa Jan Morris. É uma obra de grande fôlego, um fresco, mais do que um retrato, sobre todas as coisas venezianas. Quando estava a reflectir sobre o que viria aqui escrever acerca do livro, pensei começar por dizer que, tipo quem apareceu primeiro de o ovo ou a galinha, não sabia se era a cidade que tinha contaminado a escrita de Morris, ou se era a escrita que tinha contaminado a cidade de Veneza. Mas depois concluí que não fazia sentido, pois para mim claramente é a escrita de Jan Morris que torna aos meus olhos, a cidade de Veneza tão fascinante.

Trata-se, como disse, de um livro monumental, que percorre cada casa, cada canal, cada ilha da laguna, cada palácio, cada rua, cada ponte, da cidade de Veneza. Mas o que é fabuloso no livro é que não estamos a ver a cidade, mas estamos a vê-la através do olhar de Jan Morris. E esse olhar é qualquer coisa de extraordinário. É um olhar erudito e literário, mas ao mesmo tempo subtil. É distante e rigoroso, mas ao mesmo tempo é fascinado e romântico. Morris tem um humor fora de série, uma ironia fininha, por vezes tão leve que quase não damos por ela, temos de voltar a ler porque havia ali ‘qualquer coisa’. Mas é sempre um olhar carregado, marcado, pessoal. Nunca é um olhar neutro. O livro conta a história, mas sobretudo as histórias de Veneza e dos seus habitantes (sim, também dos ratos e dos papas), faz inventários, por exemplo de pintura, das igrejas, e das pinturas das igrejas). Jan Morris está sempre no centro dos acontecimentos, não de uma maneira exibicionista e ‘self-centered’, como acontece tantas vezes com os escritores de viagens (mesmo de alguns de quem eu gosto bastante), mas como protagonista da excitante aventura que é descobrir e conhecer uma cidade, e sobretudo mapear o nosso fascínio, ou mesmo o nosso amor, por ela.

Lembrei-me, quando estava a ler o livro, de escrever um conto em que o protagonista se chamava Miguel e nunca tinha ido a Veneza, apesar de conhecer a cidade tão bem como as palmas das suas próprias mãos. Tenho umas ideias para o conto, mas não sei muito bem o que é que hei-de fazer com ele. A ver vamos, se dá nalguma coisa.

É impossível falar sobre Jan Morris e não referir isto. Quando Veneza foi publicado pela primeira vez, o nome do seu autor era James Morris, um antigo oficial dos serviços de inteligência britânicos durante a guerra que se tornou jornalista do Times e, enquanto tal, acompanhou a primeira expedição britânica que subiu o Monte Evereste. Era casado e pai de cinco filhos. Culminou um tratamento hormonal com uma operação de mudança de sexo, no início dos anos 70. Especializou-se em escrever sobretudo literatura de viagens e é muitas vezes considerada no grupo dos melhores escritores ingleses contemporâneos. Quando o casamento entre pessoas do mesmo sexo se tornou legal em Inglaterra, Jan Morris tornou a casar com a mãe dos seus filhos, a mulher com quem sempre viveu.

Só mais uma notinha para frisar a excelente tradução do livro, feita por Raquel Mouta. Reconhecer a voz autoral e ao mesmo tempo ler o livro como se tivesse sido escrito na nossa própria língua, são, acho eu, os ingredientes para uma tradução perfeita.