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Na edição deste mês da Ler, uma belíssima entrevista com Mário de Carvalho. Há uma mão cheia de livros do Mário de Carvalho que são do melhor da literatura portuguesa contemporânea, e pelo menos um é uma obra-prima: Um Deus Passeando na Brisa da Tarde. Além de que se há coisas inesquecíveis, uma delas é a surpresa maravilhada com que lemos pela primeira vez A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho. Confesso que esmoreci um bocadinho com a Fantasia para Dois Coronéis e Uma Piscina, e não li os dois últimos livros do autor, mas um dia destes regressarei porque tenho a certeza de que desta ausência quem fica a perder sou.
Para além da reflexão sobre a literatura, e a sua própria maneira de estar nela, a entrevista resulta também no olhar atento, e crítico, mesmo um pouco desencantado, de Mário de Carvalho sobre os tempos que correm e o lugar onde eles vão correndo. Por vezes essas observações têm o rigor técnico de um diagnóstico. Escolho este trecho, não só porque o acho adequado, mas porque dá palavras ao que eu próprio penso tantas vezes:

“Estou convencido de que a arrogância nunca tem resultados positivos. Normalmente é uma falsidade: «Eu arrogo-me isto». A arrogância habitualmente está cheia de vento. É vaidade. Vanitas, que significa isso: «como o vento». Note que não estou a defender que haja uma humildade reverencial e agachadinha. Atenção. Agora, ignorar os outros ou estar convencido de que se inventou a literatura portuguesa! Há pessoas que estão convencidas disso. Por uma razão muito simples: é que não conhecem mais nada. Não têm meios de comparação. Aliás, um dos problemas dos dias de hoje é o da obnubilação dos sistemas de referência.”

Mas a pièce de résistance desta edição de Maio da Ler é outra entrevista, com a Professora Maria Helena da Rocha Pereira. Tenho uma dívida de gratidão em relação a MHRP. Eu andava no segundo ano do ciclo quando se deu o 25 de Abril. O primeiro ano do liceu, em Nampula, foi o do êxodo dos portugueses, e o das alterações dos programas escolares. O segundo ano do liceu já foi feito a seguir à independência de Moçambique, e os programas centravam-se no momento e na história de Moçambique. Conclusão, acabei o liceu sem nunca ter ouvido, quanto mais estudado, nada sobre a antiguidade clássica, nem na história nem na literatura. Foi já depois de (muito) adulto que, fascinado pelas culturas grega e romana, e acerca das quais a minha ignorância era total, que peguei nos dois voluminhos da Professora MHRD de Estudos de História da Cultura Clássica, e me deslumbrei, não só com a matéria em si, mas com a escrita clara e pedagógica de MHRP.

Mais uma vez, trata-se de uma entrevista imperdível, pela sabedoria, mas sobretudo pela clarividência de MHRP, e ainda por cima com aquela espécie de assertividade que só conseguem ter as pessoas que já viveram e estudaram muito. Gosto pessoalmente da parte em que a Professora enaltece as virtudes do estudo do latim no ensino secundário, e o compara à matemática no sentido em que uma e outra funcionam como ginástica mental, além de ser um pressuposto fundamental do ensino do português. Eu tive latim no liceu, naquilo que hoje corresponde ao 10º, 11º e 12º anos, e posso testemunhar esses dois aspectos. O latim não só me deu ferramentas primordiais para eu me relacionar bem com a língua portuguesa, como ainda por cima era divertido. Grande parte das aulas era passada a fazer traduções, que eu sempre encarei como exercícios mentais, tipo palavras cruzadas ou quebra-cabeças.