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rosas
innersmile


... ou como passar uma inesperada tarde livre de quinta-feira.

uma espécie de suicídio
rosas
innersmile
Li há dias na edição on-line do jornal i uma entrevista com o encenador e dramaturgo e cronista Jorge Silva Melo. Li, do autor, Século Passado, um volume de crónicas que funciona como uma espécie de enciclopédia memorialística, de pendor autobiográfico mas sobretudo de inventário de gostos e de referências. Isto, claro além de algumas encenações, e de filmes e documentários que realizou. Aliás, fui procurar aos aquivos, e já aqui tenho falado dele.

Acho que o que mais me atrai nos discurso de JSM é uma certa lucidez, um olhar descomprometido sobre as coisas, a que ele próprio não se furta. Claro, fascina-me a erudição, o discurso artístico, até o percurso soixante-huitard de JSM, mas é esse olhar despido, quase transparente, que mais me seduz e prende. Por exemplo, na entrevista ao i (não sei se ponha o link, ele daqui a uns dias fica desactualizado), que está cheia de nacos deliciosos, muito cheiinhos de sumo, mas sempre com uma certa simplicidade, desprovida de cinismo, talvez uma certa mistura, adequada, de intelectualidade e de candura. Impressionou-me este trecho que passo a citar, porque retrata na perfeição um determinado momento político. Apesar de JSM ir um pouco à minha frente na cavalgada geracional, foi de certo modo este o momento político que encontrei quando cheguei à idade adulta. E que constituiu, de certo modo, a herança política que eu recebi e com base na qual tenho tentado construir o edifício da minha cidadania.

«Pergunta: Os teus anos de maior efervescência política são entre 63 e o fim dos 70...

Resposta: Até à Alemanha. Repara: na segunda vez que vou para Berlim, vindo de férias, chego no dia do funeral do Rudi Dutschke, o herói alemão da minha juventude. Apanhou um tiro de um polícia numa manifestação e ficou diminuído o resto da vida e morreu das consequências desse tiro. Vivo em Berlim no fim dos anos de chumbo, depois do terrorismo, das armadas, muito próximo das pessoas que estiveram no fim trágico da extrema-esquerda. Vivi em Itália também perto do fim das Brigadas Vermelhas. Assisti ao colapso de todas as ideias por uma espécie de suicídio colectivo. Depois, não tive mais participação política propriamente dita. Acreditava que trabalhar no teatro, no cinema, tinha a ver com participações políticas, mas agora tenho dúvidas em relação a isso.»