May 9th, 2010

rosas

o senhorio



"Quando o campanário mais famoso de todos se desmoronou, o mundo inteiro ficou de luto. Há uma estação de traghetto no Grande canal, perto de San Marcuola, que tem por tradição registar os eventos na parede. Os membros escrevem com letras grandes e irregulares as mudanças de tarifa, bem como as horas de serviço, e entre várias inscrições ilegíveis há uma que se destaca. «14 Luglio 1902» (assim reza, em dialecto) «Ore 9.55 Cadeva la torre di S. Marco» - «A 14 de Julho de 1902, às cinco para as dez da manhã, caiu a torre de S. Marcos». Em toda a história de Veneza, nada parece ter afectado mais profundamente os venezianos, e o eclipse do antigo Campanário, símbolo e monumento mais importante de Veneza, é assunto de tantas conversas como a queda da república.

Reza a história que a construção do edifício teve início a 25 de Abril de 912, Dia de S. Marcos. O telhado do campanário já teve um revestimento de latão, que funcionava como farol diurno, e o brilho via-se a 40 quilómetros de distância. Na câmara dos sinos, acendiam-se fachos de aviso, e durante as guerras contra Génova colocaram-se cinco canhões lá em cima. Os sinos do campanário deram as boas-vindas a um sem-número de grandes expedições. Foram muitos os criminosos que morreram ao som do dobre lento do Maleficio, o sino dos maus presságios. Foi na câmara dos sinos que Galileu apresentou ao doge a sua invenção mais recente, o telescópio, e da plataforma que fica abaixo Gothe avistou pela primeira vez o mar. Desde o século XVII que o anjo dourado que encima o campanário é o principal cata-vento de Veneza.

Nada havia na terra que parecesse mais forte e estável do que o Campanário de S. Marcos. Como observava certo guia turístico do século XVII, «nunca dera o mínimo sinal de se inclinar, abanar ou ceder». Era uma parte tão importante de Veneza, assistira a tantos anos de diferentes fortunas, que parecia eterno, e as pessoas sentiam por ele um carinho quase condescendente, chamavam-lhe «o Senhorio». Havia o boato de que os alicerces da torre atingiam profundezas abaixo do pavimento da Piazza, abrindo em forma de estrela; e todos os visitantes de Veneza subiam ao Campanário, quer fossem um imperador desejando inspeccionar as defesas da laguna ou um padre renegado do continente, a quem penduravam da câmara dos sinos de uma jaula de madeira. No entanto, ao longo dos anos, o Campanário, tal como um tio idoso, inválido mas duro, ia enfraquecendo secretamente. Foi atingido por vários raios, pois o telhado de latão atraía positivamente as calamidades – em 1973, instalaram-lhe um pára-raios, um dos primeiros da Europa. O Campanário foi restaurado e aumentado sem ponderação, e no interior da torre fizeram-se algumas alterações estruturais drásticas. Séculos de vento e ar salgado foram pulverizando os tijolos. Os alicerces podiam ser fortes, mas não apresentavam a invulnerabilidade de que falavam as lendas: embora a torre tivesse cerca de cem metros, as estacas que a sustentavam estavam enterradas a menos de 20 metros de profundidade.

Assim, naquela manhã de Julho, a famosa torre foi percorrida por um ligeiro estremecimento, abanou e depois, lenta, suave e quase silenciosamente, ruiu. A catástrofe fora pressentida alguns dias antes: cancelara-se a salva de canhões ao meio-dia, para não fazer vibrar a estrutura, e chegou-se a proibir as bandas de tocar na Piazza. Pouco depois da aurora do dia 14, a Piazza foi fechada, e os venezianos juntaram-se em torno do perímetro da praça, aguardando o fim. Quando chegou, «Il Campanile», disse-se, «se stato galantuomo» - «o Campanário portou-se como um cavalheiro». Não houve feridos. Ao canto da Piazza formou-se um montículo de escombros, e uma nuvem de poeira elevou-se sobre a cidade, tal uma coluna de orientação ou uma mortalha: diz-se que a única baixa terá sido um gato tigrado, de seu nome Mélampyge, à semelhança do cão de Casanova, que por segurança foi levado da casa do guarda, mas que teve a imprudência de voltar a fim de terminar as suas vitualhas. O anjo do cata-vento, lançado para o meio da Piazza, foi parar à porta da Basílica, e tal evento foi visto como um sinal milagroso de que a grandiosa igreja não seria danificada: e realmente não foi, pois grande parte dos detritos foi detida pelo pilar atarracado que fica na Piazzetta do sul e de onde se proclamavam as leis da república. Quando a poeira assentou e a cantaria solta sedimentou, descobriu-se intacto entre os escombros o Marangona, o sino mais antigo de Veneza, que chamara os habitantes às suas obrigações durante seis séculos. Chegou-se também a encontrar por entre os destroços meia dúzia de camisas em muito bom estado que a mulher do guarda engomara no dia anterior.

Em pouco tempo estava tudo terminado, ficando na praça uma pirâmide de tijolos e pedras partidas, como se tivesse havido uma erupção. (Os destroços foram depois levados em barcaças e atirados ao Adriático, com uma coroa de luto feita de louros.) Conheci um homem que esteve presente nessa ocasião melancólica e que ainda me pareceu um pouco tolhido pelo choque. «Não o espantou que uma tal coisa tenha acontecido?», perguntei-lhe eu. «Bem», respondeu pesaroso, «espantou, foi mesmo uma surpresa. Eu conhecia o campanário desde criança, como se fosse um amigo, e nunca pensei realmente que ele pudesse ruir».

As notícias da morte daquele velho senhor ressoaram tristemente por todo o mundo. A silhueta de Veneza, um dos panoramas mais universalmente conhecidos na Terra, mudou drasticamente, e a linha do horizonte ficou de uma planura estranha, sem traços característicos, como um navio sem mastros. O conselho da cidade reuniu-se no mesmo dia à noite, sob a presidência de um velho patrício veneziano, o Conde Grimani, que foi presidente da câmara durante mais de 30 anos. A decisão foi de uma incomparável nobreza. Alguns venezianos eram de opinião de que não valia a pena reconstruir a torre. Muitos mais pensavam que a Piazza ficava melhor sem o campanário. O conselho, no entanto, não era dessa opinião. O Campanário seria reconstruído, decidiram eles, «exactamente como era e onde estava», e a frase ficou famosa na tradição veneziana - «Com’era, dov’era.»

Choveu dinheiro de inúmeros países; de Roma, vieram os maiores especialistas; em nove anos reconstruiu-se o Campanário, com uma estrutura mais moderna, com menos 600 toneladas, mas de aspecto quase idêntico. Os sinos partidos foram a refundir na ilha de Sant’Elena, e o próprio papa pagou o trabalho – o mesmo Pio X que vimos regressar a Veneza em grande triunfo meio século mais tarde. Os alicerces foram reforçados com mais mil estacas. A loggeta que existia na base da torre foi reconstruída, pedra por pedra, bem como os leões e outras figuras que tinha no cimo. As asas partidas do anjo receberam talas. A 25 de Abril de 1912, um milénio depois de se lançarem os alicerces do antigo campanário, inaugurou-se o novo. Libertaram-se milhares de pombos para levar a notícia a todas as cidades de Itália: e no banquete comemorativo seis convidados usaram as camisas que foram resgatadas dos escombros nove anos antes."


- Jan Morris, VENEZA, (Tinta da China, MMIX)