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millás, o mundo e os objectos chamam-nos
rosas
innersmile


Li O Mundo, de Juan José Millás, e gostei tanto que comecei a ler logo em seguida outro livro do mesmo autor, Os Objectos Chamam-nos. O Mundo é um livro excepcional, um exercício autobiográfico, no qual Millás faz inscrever a escrita, a sua escrita, naquela perspectiva absurda e alucinada com que olhamos o mundo na infância. O humor, particularmente a ironia, anda de mãos dadas com os medos e as dores próprias da infância, num registo que deve muito, e a isso faz referência, à experiência do autor com a psicanálise. O que é fascinante neste livro é a facilidade com que nos transportamos para dentro do sujeito narrativo, e o modo como isso nos ilumina e esclarece. Claro que aprendemos sempre muito com os livros, claro que os livros nos ensinam sempre muito sobre o mundo, mas não é assim tão frequente lermos um livro que nos ensina coisas novas sobre nós próprios.

Fiquei tão fascinado com a escrita de Millás que peguei logo de seguida em Os Objectos Chamam-nos. O livro é composto por pequenas histórias, divididas em duas partes, uma primeira com histórias mais pessoais, não no sentido de serem autobiográficas, mas sobretudo porque têm a ver com uma experiência muito subjectiva de viver a vida, e uma segunda de histórias digamos, para contrapor, mais objectivas, mais viradas para fora. Mas em todas há um cruzamento constante, e mutuamente influenciável, entre aquilo que podemos chamar a vida real e um mundo absurdo, que é sempre a maneira como intimamente vivemos a vida. Para dar uma ideia do que estou a falar, e é apenas um exemplo entre dezenas e dezenas de histórias nmuito breves, há um narrador, ainda jovem, que juntamente com um colega se apaixonam por um manequim de plástico cuja roupa apresenta leves manchas de suor nas axilas. Claro que se fosse apenas o narrador a vê-las, as manchas de suor poderiam ser um mero produto de uma imaginação febrilmente adolescente, mas o facto de serem dois a vê-las torna logo a coisa do domínio dos factos, do real, ainda que seja um real absurdo. Outra história é a de um homem com ambições a escritor que tem por amigo imaginário um crítico literário. As relações entre ambos vão azedando ao ponto de o escritor matar o seu amigo inventado, para a seguir se atormentar com os sentimentos de culpa e o medo de ser preso pela polícia imaginária e julgado por um tribunal inventado. Para aliviar a pressão confessa à mulher ter cometido um crime, e ela acusa-o de ele ter assassinado o irmão dela, um deficiente à custa de quem ambos viviam.

Logo no início de O Mundo, Millás conta que o pai fabricava instrumentos cirúrgicos eléctricos, e que ele muitas vezes gostava de o ver trabalhar na oficina que ficava junto à casa, do outro lado de um pequeno pátio. Um dia o pai chamou-o para lhe mostrar as experiências que estava a fazer para aperfeiçoar um bisturi eléctrico, mostrando-lhe como ao fazer uma incisão num pedaço de bife, a lâmina rasgava a carne ao mesmo tempo que a cauterizava. Millás refere seguidamente ter descoberto que é exactamente isso que acontece quando escreve: rasga a ferida ao mesmo tempo que a cura. É esta lucidez rigorosa, absoluta, que desponta quanto mais se alucina a olhar o mundo, que torna exaltante a leitura de Juan José Millás.