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i love you phillip morris
rosas
innersmile
Fui ver I Love You Phillip Morris, escrito e realizado pela dupla Glenn Ficarra e John Requa, e confesso que no fim fiquei assim um bocado sem saber muito bem o que fazer do filme. Vale a pena dizer que é baseado na história verídica de Steven Russell, um polícia de um meio conservador que um dia descobre que é gay e para poder sustentar la vida loca desata a cometer fraudes que o levam frequentemente à cadeia de onde consegue escapar sempre através de golpadas e aldrabices. Numa dessas passagens pela cadeia conhece o Phillip Morris do título, e toda a sua actividade criminosa orienta-se no sentido de manter os dois fora da cadeia e, claro, a proporcionar ao namorado um estilo de vida feito de bombons e Mercedes descapotáveis. O filme tem um inegável toque indie, apesar de, mais não seja pela magnitude das estrelas, ambicionar o crossover para o mainstream.

O problema do filme é que é um bocado como um centro comercial. Um centro comercial tem restaurantes, tem lojas de móveis, tem casas de banho, tem todo o tipo de comércio. Ou seja, tem tudo o que é necessário para responder às nossas necessidades de subsistência. Faz então sentido ir viver para o centro comercial? Não (pelo menos para grande parte das pessoas), porque apesar de ter tudo o que precisamos para viver, temos a percepção de que a vida, a vita vera, se passa fora do centro comercial. O filme também é um bocado assim, tem tudo o que é preciso para o tornar um filmeinteressante, e até importante, mas, raios!, a vida está fora do filme. O ponto é que, pelo menos eu, nem por um momento acreditei na drive que faz mover Steven. E não acreditar na verdade de uma personagem, ainda que seja uma que não tem propriamente um conceito de verdade, é matar a sua história. De certo modo a personagem de Phillip Morris é mais verdadeira, mas isso é porque nunca deixa de ser incidental, e sobra-lhe espaço para respirar e mostrar-se um bocadinho humana (não escamoteio que o mérito se deve também a um excelente actor). Quanto à personagem de Russell, que deveria ser o motor do filme, está sempre demasiado ocupada a mostrar o que é ser gay ou que é ser vigarista ou como sair da prisão, ou seja o que for. É um pouco (rai’das metáforas) como um artista de circo que está permanentemente em cena, que ora faz malabarismos, ora mantém os pratos a girar, ora faz truques de ilusionismo, ora faz acrobacias no ar, ora faz palhaçadas. É um bom palhaço? É pois, mas quando é que ele vive, quando é que respira, quando é que ele é?

A sucessão de coisas que estão sempre a suceder a Steven cansou-me, foi o que foi. E no entanto há muitas coisas no filme que são positivas. A começar pelo humor, que tem momentos de altíssima corrosividade, e a acabar na atitude in-your-face com que o filme trata os assuntos gay, sem pedir desculpa nem tentar disfarçar (mesmo quando tropeça na caricatura). E sobretudo numa certa atitude política, ao dar ao filme uma aura de contra-cultura, e principalmente fazendo-o assentar numa perspectiva, já não digo anti-sistema, mas pelo menos fora do sistema. Aliás vale a pena referir duas coisas. A primeira é que o filme está com sérias dificuldades em encontrar distribuidor no mercado dos Estados Unidos, onde ainda não estreou, e, acho eu, isso tem tudo a ver com esta perspectiva tão fora do establishment que o filme tem, e que o torna difícil de catalogar enquanto produto de marketing. A outra prende-se com a própria história de Steven Russell, que está neste momento a cumprir uma pena de qualquer coisa na ordem dos 150 anos de cadeia. Isto, note-se, sem ter cometido crimes de sangue ou sequer violentos. Uma pena tão pesada (num sistema judicial que não põe limites ao cúmulo das penas) só se pode justificar pela reacção ultrajada do sistema judicial, que foi gozado e explorado por Russell para conseguir dar os seus golpes e escapar-se. Com efeito, como até entre nós já vamos aprendendo, embaraçar o sistema é bem pior do que violar a lei.

Só mais uma nota para falar dos actores, que são peça fundamental deste filme. Face ao que disse acima, é impossível não nos interrogarmos até que ponto o Jim Carrey é responsável pelo falhanço do filme. Note-se que ele é brilhante, como quase sempre, e compõe uma daquelas personagens muito negras, cheias de sombras e abismos, em que é especialista quando não está a fazer caretas. É ‘culpa’ do actor ou da sua direcção, o facto de a personagem não ter pontos de fuga, não ter espaços para respirar, e estar sempre no tal three ring circus, em que está sempre a mexer e a fazer coisas? Ao contrário, Ewan McGregor, sem a pressão de ser o centro da companhia e de ter de estar sempre em acção, tem tempo e espaço para construir uma personagem deliciosa, uma daquelas bichinhas tímidas mas atrevidas, e que o actor veste completamente, nos olhares, nos gestos, quando fala, quando corre, até quando não está em cena e apenas lhe ouvimos a voz. Face ao Phillip Morris de Ewan percebe-se a paixão obcecada de Steven Russell: quem é que não se apaixonaria por um tipo assim tão lindo e amoroso, tão ‘cute’?
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