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Quando passámos a vida toda a ver filmes de determinado realizador, como aconteceu comigo em relação a Martin Scorsese ou a Woody Allen, a Francis Coppola ou Steven Spielberg, ganhamos uma certa intimidade, ou mesmo alguma cumplicidade, que nos impede de ver direito os seus filmes. O nosso olhar já é contaminado, procuramos mais um prazer nosso, ou a sua repetição, do que propriamente a fruição intelectual de uma obra de arte. Mas se com Scorsese, Allen ou Spielberg, há um determinado nível ou tipo de desempenho que podemos sempre esperar, já com Francis Ford Coppola as coisas são um pouco diferentes. A sua obra é desigual, não tanto no sentido de que tem bons e maus filmes, mas mais no de que a sua cinematografia é feita de momentos sublimes, e de fracassos excruciantes. E mesmo quando foi obrigado a fazer filmes mais funcionários, esta dicotomia nunca deixou de estar presente. Agora, depois de ter estado dez anos sem filmar, Coppola afirma que só faz os filmes que quer, e são já duas as obras, primeiro Youth Without Youth e agora Tetro, que sofrem, e a escolha da palavra é intencional, desta liberdade criativa do realizador (e Tetro por maioria de razão, já que o primeiro argumento origibnal de Coppola em muitos anos).

Há quase sempre no cinema de Coppola uma ambição, uma desmesura, que nunca é megalómana, mas que dá aos seus filmes uma qualidade, ou mesmo uma vocação, operática. Muitas vezes o realizador perde-se nessa desmesura, mas são sempre interessantes e desafiadores os seus filmes, e quando batem certo, mesmo que seja apenas em breves cenas, é sempre compensador e, muitas vezes, perfeito. Ópera é feita de música e teatro, e é isso que está presente na matéria narrativa de Tetro. Dois irmãos, filhos de um genial director de orquestra, encontram-se ao fim de muitos anos, e o que se segue é um ajuste de contas entre os membros de uma família rasgada pelo génio, pela rivalidade, pelo sucesso e pelo medo do fracasso. É fácil cair na tentação de ler o filme de uma perspectiva autobiográfica, em que caberia ao próprio Coppola o lugar quente que no filme é o desempenhado pela figura paterna (que saudades de ver Klaus Maria Brandauer no ecrã). Mas se é certo que abundam os sinais que permitem essa perspectiva, creio que olhar as coisas desse prisma não acrecenta grande coisa ao gozo do filme, e limita a sua leitura.

O filme é quase todo filmado em preto e branco e a acção desenrola-se na Argentina, em Buenos Aires e na Patagónia, e o filme alimenta-se destes lugares de uma maneira quase bulímica. Coppola tem, como sabemos, o gosto da encenação, da mise-en-scéne, e sempre esta vontade de carregar o plano de sinais e de leituras e de o organizar quase como se fosse o espaço de um palco, de dispôr as personagens de forma a criar tensões entre elas. Onde o filme sossobra, a meu ver, é ao nível da narrativa. Não é fácil gerir tantos elementos, tantas referências, tantos ângulos de leitura, sem perder o controlo da narrativa, sem a deixar dispersar e perder ritmo. Mas o que o cinema de Coppola tem de mais belo é o gosto do risco, é levar mais longe a distorção, e é por isso que os seus fracassos, como One From The Heart, são sempre tão fascinantes e formidáveis como os seus sucessos.

Só mais uma nota para os actores. Apesar do lugar central que no filme tem a personagem desempenhada por Vincent Gallo, o filme repousa sempre, não tanto na personagem, mas no próprio desempenho de Alden Ehrenreich, o actor que dá corpo à personagem de Bennie, o irmão mais novo. Evocando numas alturas a ingenuidade um pouco rebelde do jovem Leonardo DiCaprio, noutras a transparência de Matt Damon, e ainda noutras o olhar mischievous de um Jack Nicholson, Ehrenreich parece captar sobre si, como um iman, todas as atenções da câmara. Estamos para ver se isso acontece por mérito do realizador, ou se há mesmo um grande actor que vai marcar o ecrã nos próximos anos.
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