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o olho de hertzog
rosas
innersmile


Comecei a ler O Olho de Hertzog, o último romance do moçambicano João Paulo Borges Coelho, a semana passada, e queria terminá-lo antes de ir de férias. No Sábado dei-lhe um bom avanço, no Domingo de manhã também, e à tarde comecei a ler eram umas cinco da tarde e só parei já passava da meia-noite, com o livro todo lido. Eu gosto muitos dos livros do JPBC (só ainda não li o Campo de Trânsito), e tive oportunidade de lhe dizer isso na sessão de lançamento do livro, aqui há umas semanas. Aliás, não só lhe disse o quanto gostava dos seus livros, como lhe referi algumas passagens de vários romances, que são aqueles nacos de prosa tão perfeitos que ficam sempre connosco.

Tirando o livro anterior, Campo de Trânsito que, como referi, ainda não li, O Olho de Hertzog representa um patamar superior relativamente aos livros anteriores do autor. Não exactamente porque seja melhor, menos ainda porque me tenha agradado mais (os meus preferidos continuam a ser As Visitas do Dr. Valdez e os dois volumes de contos, Merdidão e Setentrião), mas porque de facto é uma obra com outro fôlego e com outra ambição. Situando-se nos anos do final da primeira guerra mundial, o livro é, essencialmente, um pretexto para contar a história de uma cidade, Lourenço Marques, e para nos falar do seu carácter, do seu cosmopolitismo, das suas contradições, do papel relevante que teve na região. O que JPBC faz, utilizando concerteza os seus recursos de historiador, é tratar Lourenço Marques como uma daquelas cidades envolvidas em mistério, onde se joga a grandeza das nações, mas igualmente as misérias dos seus habitantes. Apesar de haver incursões a outras partes da cidade, e aos seus arrabaldes, o grosso da narrativa desenrola-se numa espécie de quadrado afectivo, a baixa, delimitado pelas praças MacMahon e 7 de Março, com eixos nas ruas Araújo e Consiglieri Pedroso, e limites no Mercado Municipal e, um pouco mais acima, no Hotel Club, na esquina onde ainda hoje existe, junto ao que no romance é ainda o projecto de jardim público. Esta geografia fez-me lembrar, um pouco, O Ano da Morte de Ricardo Reis, do José Saramago. Não que haja pontos de contacto entre os livros (mas pensando bem, até há, vários), mas a baixa de Lourenço Marques funciona um pouco como o Chiado no livro de Saramago, é quase como se a narrativa emanasse das ruas, das praças, dos quarteirões, dos edifícios.

Mas dizer que o romance é um pretexto para escrever sobre uma cidade, não é apoucá-lo. A trama é intrigante, o livro lê-se, à vez, como um policial, como um livro de guerra (um relato de campanha, como era costume escrever-se), e como um romance de espionagem política internacional. Há, literalmente, nações que se formam, nas páginas deste livro, e há projectos de nações que começam a germinar. Há consciência social e política, há editoriais jornalísticos inflamados e incendiários, mas há também aventura ao melhor estilo Indiana Jones, com zeppelins e diamantes gigantes. Há muitos segredos e meias-verdades, há portas que se abrem para outras portas e estas para quartos de espelhos. A verdade pode nunca ser o que parece, e é uma coisa que se vai construindo, ao ritmo dos relatos.

E há, sobretudo, a própria escrita de JPBC, muito seca e evocativa, um narrador de voz segura, que nunca se afasta muito das personagens, mas que ao mesmo tempo tem o dom tranquilizador de ver a verdade, ou pelo menos a matéria de que a verdade é feita, em todos os passos da intriga, mesmo nos mais falsos. Há a construção engenhosa do romance, com duas vozes que contam alternadamente a mesma história, a maneira como se chegou até ali e o modo como a intriga vai evoluir. E há uma galeria de personagens inesquecíveis, mulheres misteriosas e instigantes, altas patentes militares prisioneiras de códigos de honra, aventureiros sem quartel, políticos e salteadores de mãos dadas a construir futuros sombrios. Há um colosso africano, de nome grego, que está sempre no centro da intriga mas sem nunca a determinar. Há um oficial alemão, Hans Mahrenholz, que é quem nos conduz nesta aventura. E há, predominando em todo o livro, a figura de João Albasini, jornalista e poeta, mulato assimilado, pioneiro do nacionalismo moçambicano, topónimo de largo urbano (ali, onde o cimento acaba e a períferia começa), e agora alcandorado à glória maior de herói literário.