?

Log in

No account? Create an account

(ainda)
rosas
innersmile
À espera que a hora mude, e os dias fiquem maiores.



a palavra
rosas
innersmile


FLOR

Algures por esses campos em volta
desta mesquinha vila de província

deve haver ao menos uma flor.
Agora vou falar acerca dela:

não é necessário ter muita fé
para saber que essa pequena planta

existe, tem o caule débil, pétalas
de vermelho, mede poucos centímetros.

É mais do que provável que no vento
ondule sob o sol cor de açafrão.



Leio os poemas de OBSESSÃO, de José António Almeida, com a tranquila exaltação de quem procura uma casa. Leio-os quase como um romance, tentando viver através do personagem que os lê. O que fica, no fim, são as “vogais e as consoantes”. É isso que aprendo, a mastigar "a palavra da vergonha".

a single man
rosas
innersmile


Cheguei a casa, depois de ver o filme. Vesti umas calças de pijama, uma sweatshirt, liguei o computador, pus o Classical Jazz Quartet a tocar Rachmaninov, e fui à estante buscar o livro. Tenho o hábito, tinha mais do que tenho, de assinar numa das primeiras páginas e pôr uma data. Lá está: Junho de 1988. Há-de ter sido por essa altura que o li. Um Homem no Singular, o título em português do livro de Christopher Isherwood no qual se baseia o filme de Tom Ford, A Single Man.

Leio as primeiras páginas, leio o final, e desfolho as páginas à procura da sequência, para conferir com a do filme. Percebo que há uma frase sublinhada a lápis. Agradeço este hábito que tenho de por vezes sublinhar e anotar os livros à medida que vou lendo. Descobrir essas notas tantos anos depois é sempre um exercício interessante. Caramba, o que é que me pode ter levado, há mais de vinte anos, a sublinhar a lápis esta frase: "Se pudéssemos passar a vida inteira neste estado de democracia física fluente!"? O que é que isto quer dizer?

Procuro outros sublinhados, e só encontro mais este: "Que inadmissível ultraje para a carne ter de ser trazida para aqui – adormecida pelas drogas, picada pelas agulhas, cortada pelos bisturis! Mesmo que vão curá-la e libertá-la nunca mais poderá esquecer, perdoar. Nunca nada mais voltará a ser o que era. Perderá toda a fé em si própria." Percebo melhor a razão porque sublinhei este trecho: em 88 eu tinha mesmo acabado de estar doente, tinha sido picado por agulhas e cortado por bisturis, reflectir sobre a doença e o que ela significa na vida de uma pessoa, era uma coisa que me ocupava muito. Leio agora a frase de Isherwood e admiro-me, primeiro, pelo facto de a ter sublinhado, uma frase tão certeira, e depois por ela ser tão verdadeira, ou melhor por ela ter sido tão verdadeira para mim ao longo destes mais de vinte anos. É um facto, curei-me, libertei-me, mas a carne perdeu efectivamente a fé em si própria, e nunca mais nada voltou a ser como tinha sido antes. Mesmo esta sensação de brevidade, de que os últimos quase trinta anos da minha vida passaram num instante. De que a minha doença me parece uma coisa tão distante, mas que o facto de eu ter estado doente, com uma doença grave, continua a ser uma coisa sempre presente na minha vida. Podemo-nos libertar da doença, mas nunca mais nos libertamos de a ter tido.

Mudou a hora e já é tardíssimo, passa das três.

Eu estava desejoso de ver o filme, ansioso mesmo, cheio de expectativa, e o filme de Tom Ford não me desiludiu nem um bocadinho. Adorei. Acho maravilhoso ele ter feito um filme tão belo a partir da história do Isherwood, porque o Isherwood é um dos meus ídolos, e é sempre bom vermos aquilo de que gostamos ser bem tratado. Fiquei até um bocadinho comovido quando descobri, no genérico final, que o Don Bachardy foi um dos produtores (creative producer, se não estou em erro) do filme.

Acho que não tenho muito a dizer acerca do filme. Não é um filme perfeito, claro, e tem uma contradição muito curiosa: aquilo que o faz, aquilo que o torna naquilo que ele é, é o facto de ser muito bonito, de cultivar a beleza em cada plano, em cada pormenor, em cada sequência, em cada adereço, em cada figurino, em cada corpo de actor. E no entanto essa procura tão intensa da beleza acaba por macular o próprio filme, porque, como disse o Zé, é uma beleza que nos exclui do filme, que nos põe fora dele. Isto é muito interessante. O filme é belo quase como uma epifania, é a sua beleza que nos move, que nos perturba e transtorna. Mas é ao mesmo tempo a sua beleza que nos exclui.

O filme tem sequências fabulosas. Toda a sequência da noite em casa de Charley é admirável, parece que se escreve a si própria, contém tanta verdade que é como se sempre tivesse existido, é como se não contivesse a mais leve costura, a indelével marca de quem a costurou. Pun intended, é claro.

Não sei se é um grande filme. Mas é daqueles filmes que queremos ter para ver de vez em quando, para ver um bocadinho, para ver uma sequência, para ir vendo aos poucos, para descobrir a banda sonora, para atentar nos pormenosres da direcção artística, nas variações da saturação de cor por vezes dentro da mesma cena, para reparar como em muitas cenas os rostos nos surjem pálidos para logo a seguir ganharem mais cor. Para ver o Colin Firth e a Julianne Moore vezes e vezes seguidas, a dançarem o twist. Enfim, é daqueles filmes que queremos ter para, como num livro do Christopher Isherwood, sublinhar a lápis determinadas passagens, e descobri-las, em estado de encantamento, daqui a mais de vinte anos.