March 23rd, 2010

rosas

o 3º sexo



Li durante o fim de semana passado o livro O 3ª Sexo, da autoria da jornalista Raquel Lito, e que aborda, através de relatos pessoais, vivências e experiências da homossexualidade em Portugal. É um livro datado, nomeadamente porque se referencia muito ao recente debate sobre a legalização do chamado casamento gay, mas isso está longe de ser um defeito ou uma limitação. Não quero passar uma imagem muito negativa do livro, até porque o acho muito positivo, tal como a iniciativa de o escrever e publicar, mas se o facto de ser datado não é um defeito, o livro tem outros a assinalar. Desde logo no plano formal, em que uma edição deficiente, ou mesmo ausente, originou gralhas de edição que, enfim, sempre se poderão corrigir em futuras edições. Mais incómoda é uma certa falta de planeamento do texto que torna alguns trechos uma amálgama não muito agradável de lugares-comuns sentimentais, de crónica de costumes e de sentenças científicas da psicoterapia do género. Não conheço o trabalho da autora enquanto jornalista, mas suponho que isto resultará de uma certa falta de experiência, nomeadamente na transposição da reportagem para o folêgo mais exigente do livro. Se a reportagem se compadece com uma escrita muito ao correr da pena e das ideias, em livro isso pode resultar confuso e incómodo.

Mas, como disse, não quero ser negativo em relação ao livro, porque os seus méritos ultrapassam em muito os defeitos. Desde logo o de dar voz a experiências individuais da homossexualidade, que, apesar de terem denominadores comuns, demonstram o que é essencial: a experiência humana é vivida individualmente e não são as questões de identidade sexual que a reduz a categorias taxinómicas. Há tantas homossexualidades quantas os homossexuais que as vivem, tal como há tantas heterossexualidades quantas os heterossexuais. Mas, dito isto, outra coisa que o livro vem provar é que se há um denominador comum na experiência homossexual, que possa ser redutor enquanto objecto de análise, é o conflito social, mais ou menos aberto, mais ou menos traumatizante, mas sempre constrangindo, limitando ou ameaçando o direito à plena realização da felicidade humana dos indivíduos. Esse conflito pode ser mais gravoso, como nos casos mais virulentos de homofobia, ou podem passar pela simples e mais comum necessidade, ou vontade, de ser discreto, de passar despercebido, de não dar nas vistas. Claro que ser discreto é uma caracteristica comum a pessoas de várias identidades sexuais, mas o que já não é comum é essa vontade de descrição não decorrer de uma questão de feitio ou de maneira de ser, mas antes de uma estratégia de sobrevivência social.

É óbvio que nem todos os homossexuais se reverão nos relatos incluídos no livro. Eu diria até que o mérito maior do livro, como decorre do que escrevi anteriormente, é que apenas os doze envolvidos se revejam nos seus próprios relatos. Mas isso não impede de podermos reconhecer nesses relatos e nessas vivências questões comuns, familiares, etapas porque todos passámos, ou passámos mais ou menos. Mas mesmo para os que não passaram por essas experiências, o livro sempre é interessante ao pôr a tónica no modo como a repressão social e familiar sempre se reflecte nas vidas de cada um.

Claro que seria desejável vivermos numa sociedade e num tempo em que as questões de identidade sexual não deveriam, por falta de necessidade, ser objecto de análise específica, em que a experiência humana não deveria ser tão marcada por esse aspecto concreto. Mas também nos dizem os processos de reconhecimento da cidadania e de combate à discriminação homofóbica noutros países e noutras sociedades, que é importante dar visibilidade e reflectir sobre estes assuntos. A homofobia, como o nome indica, funda-se no medo, e só tememos aquilo que não conhecemos. Escrever sobre o tema, discuti-lo, analisá-lo, só pode elevar-nos, porque nos permite a todos, mesmo ou sobretudo àqueles que não têm contacto com homossexuais, através dos seus círculos familiar, social ou profissional, perceber aquilo que parece ser a teoria última do livro de Raquel Lito: a de que a diferença entre as pessoas não radica na sua identidade sexual, mas na maneira como percepcionamos e vivemos essa diferença.

Do conjunto de doze relatos incluídos no livro, quatro deles pertencem a figuras públicas, a pessoas que, por razões profissionais ou outras, têm visibilidade mediática, ou pelo menos têm uma dimensão que pode ser conhecida pela generalidade das pessoas, ainda que não tenha a certeza se serão exactamente aquilo a que hoje se denomina como celebridades. Não são propriamente surpresas, até porque qualquer dos quatro já tinha assumido, de alguma forma, a sua condição homossexual num discurso público. O que não deixa de ser louvável, porém, é essas pessoas nos virem falar, sem exibicionismos sensacionalistas ou fingimentos hipócritas, das suas experiências pessoais, dos seus processos de crescimento e aprendizagem, mesmo das suas fragilidades mais problemáticas. Virem-nos falar de coisas íntimas, pessoais, privadas, daquelas que, como nos versos de Régio, temos pudor de contar seja a quem for. E se isso revela alguma coragem por parte dos protagonistas, revela igualmente mérito do livro e da sua autora. Pela maneira como aborda os temas mais sensíveis, mas também por ter merecido a confiança de quem lhos relatou.