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o laço branco
rosas
innersmile
Estava um bocado reticente em ir ver O Laço Branco, o mais recente filme do realizador austríaco Michael Haneke. Lembro-me bem da brutalidade de La Pianiste, e de como esse filme me perturbou, e francamente não ando com pedalada para grandes confrontos emocionais. Mas fui ver o filme, e ainda bem, porque O Laço Branco é deveras um filme extraordinário.

Começa a sê-lo logo no plano formal, com um preto e branco muito contrastado, um rigor extremo na construção dos planos, os diálogos escritos com apuramento literário, o encadeamento das sequências, fazendo sempre progredir a narrativa, sempre a torná-la mais densa, quase como um redemoinho. À primeira vista parece quase um filme fora do tempo, que busca uma estética de um determinado cinema do passado, promovendo um certo bucolismo e as virtudes de um estilo de vida campestre, simples e puro. O contraste do preto e branco dá luminosidade ao filme, evita-o de ser sombrio, mas esse jogo de luz muito branca e sombra muito negra, logo nos faz entrar num atmosfera de inquietação, de um mal-estar, que o filme nunca explica onde está, e por isso só pode residir no interior das personagens, numa brutalidade, que se vai revelando em crescendo, que se esconde, mas ao mesmo tempo sustenta, nessa pureza que, de resto, dá ao filme o seu próprio título.

Ao situar a acção na Alemanha e nos meses que antecedem a primeira guerra mundial, cujo eclosão como que precipita o final do filme (como se o filme caminhasse para esse desfecho, mas fosse, apesar disso, precipitado por ele), o filme pede uma clara leitura metafórica, sobre o país que contém em si as sementes que, regadas pelo estertor do império austro-hungaro e pela derrota da primeira guerra, germinariam no nazismo. Com esta leitura, O Laço Branco reivindica-se como filme político, ao reflectir sobre as origens do nazismo, aprofundando-lhe as raízes no puritanismo religioso, na repressão do desejo e na expiação da culpa pela violência. O que sempre perturba no cinema de Haneke, e deste modo nos aproximamos de La Pianiste, é que essa leitura parece poder dirigir-se a cada um de nós espectadores, e como uma reflexão sobre o surgimento do nazismo pode ser sempre reconduzida a uma exercício sobre a natureza do mal no homem.
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