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sisal
rosas
innersmile
Passámos o cruzamento de Naguema e a estrada, pouco mais do que uma picada, desenrola-se à nossa frente quase em linha recta, mas uma linha recta acidentada, cheia de buracos e sulcos que a atravessam de um lado ao outro, resultado das fortes chuvadas e do temporal de há duas semanas. Eu seguia à frente, na carrinha tipo hiace, ao lado do condutor, e as duas raparigas dormiam no bando do meio. Apesar de me parecer que a estrada estava no limite do transitável, o condutor, um homem de meia-idade, forte, que trazia na cor da pele a mistura de raças típica dos muçulmanos da ilha, seguia tranquilo e sem visível sinal de preocupação pelo estado da via. Vi uma cobra negra e grossa a atravessar a faixa cor de barro da estrada, e lembrei-me do medo que eu tinha, quando estas cobras se atravessavam à frente do carro, de que se prendessem às rodas e entrassem para dentro do carro. Fazia um inventário mental a todos aos possíveis pontos fracos, e concluía que seria perfeitamente possível a cobra entrar para dentro do habitáculo pelos orifícios dos pedais, que, ainda por cima, ficavam muito próximos das rodas da frente do carro, aquelas que a cobra escolhia para se agarrar.

Não passava por esta estrada há mais de vinte sete anos e, no entanto, parecia-me que tinha passado por ela há pouco tempo. Não havia nada em mim, dentro de mim, no meu corpo, que me dissesse que eu estava quase trinta anos mais velho, que vivia noutro continente, qual quê?, noutro hemisfério, noutra galáxia, que tinha tirado um curso, que era um quadro superior da administração pública, que tinha tido um cancro e sobrevivido, que tinha subido à estátua da liberdade, em Nova Iorque, e cruzado as auto-estradas do midwest, que conhecia certos bairros de Londres quase tão bem como o bairro da cidade onde vivia. Nada, absolutamente nada, me dizia que tinha passado tanto tempo desde que eu tinha percorrido aquela estrada pela vez anterior. A não ser subtis sinais da paisagem. Mas que podiam significar que eu tinha estado fora trinta anos ou apenas três meses.

Neste lugar, de uma década para outra, e para outra, a paisagem mantém-se inalterável. E no entanto muda quase radicalmente de uma estação para a seguinte, da semana antes da chuva para a semana depois da chuva. Depois, aos poucos, quase como se fosse orgânica, e é, a paisagem voltava ao seu aspecto de sempre, de modo que um viajante intermitente não seria capaz de assinalar diferenças. É uma sensação indescritivelmente estranha, capaz de levar alguém à loucura, essa de não perceber, simplesmente olhando para fora das janelas do automóvel, olhando distraidamente para a linha do horizonte, para as manchas de verde ou para os troncos dos embondeiros, não perceber se, desde a última vez que ali cruzámos, se passaram três meses ou trinta anos. É inquietante tomarmos súbita consciência de que durante quase trinta anos esta paisagem esteve sempre ali, fora do alcance do nosso olhar, e que de facto, entre a última vez que olhámos para ela e este momento, apenas nós e o nosso desamparado olhar, permanecemos os mesmos. Tudo, lá para fora das janelas da carrinha que balançava entre os profundos sulcos da estrada, tudo era outra coisa, tudo mudara. Afinal tinham-se passado quase trinta anos. Ou, pelo menos, mais do que três meses, mais do que uma estação.

Lembrei-me de que, seguindo em direcção ao litoral, do lado esquerdo da estrada, acompanhando-a ao longo de muitos quilómetros, ou do que me parecia serem muitos quilómetros, havia intermináveis plantações de sisal. O campo estava limpo entre as plantas, que cresciam a intervalos regulares entre elas. Fiquei a olhar muito fixamente para este lado da estrada, sem coragem de perguntar ao condutor que era feito das plantações de sisal. O mato deste lado da estrada era igual ao do outro lado, mas parecia-me que havia menos árvores de grande porte, menos embondeiros, como se, de facto, há muitas estações atrás, ali tivesse havido uma plantação. E eu seguia com os olhos presos no lado da estrada, olhando fixamente a paisagem, à espera de ver surgir, entre as manchas do mato, a estrela perfeita de uma planta de sisal.