March 17th, 2010

ghostrain

viagem por áfrica



Faltam-me poucas páginas para terminar a leitura de mais um livro de viagens de Paul Theroux. Ou seja, mais uma viagem extraordinária e mais uma fantástica aventura literária. É o terceiro relato de uma grande viagem trans-continental que leio de Theroux, e depois da travessia das Américas em O Velho Expresso da Patagónia e da Ásia em Ghost Train to The Eastern Star, foi agora a vez de Viagem Por África (no original Dark Star Safari), o relato de uma ligação da cidade do Cairo à cidade do Cabo, sempre por terra.

Sou um admirador incondicional do Paul Theroux, basicamente porque os seus livros me divertem. E, claro, porque a personagem é absolutamente irresistível, mesmo quando é pouco simpática. Theroux é presunçoso, muitas vezes as suas opiniões e pontos de vista são precipitados e enviesados, e quando não sabe inventa. Mas curiosamente isso são tudo caracteristicas que enriquecem os relatos, torna-os mais suculentos e sobretudo mais divertidos. E para além disso, Theroux tem um jeito enorme para captar e descrever paisagens e sobretudo ambientes e atmosferas, uma atenção ao detalhe que nos transporta para o centro da acção, e os seus livros são fundamentalmente preenchidos com histórias de encontros, uma sucessão de retratos, uns mais e outros menos improváveis, e de diálogos, que, mais do que darem conta dos lugares por onde Theroux passa, são maneiras de olhar um mundo que é nosso. Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia, não é?, como diz o bardo, mas muitas dessas coisas estão nos volumosos tomos onde Theroux relata, mesmo quando suspeitamos que esteja a inventar, as suas aventuras.

O retrato africano que resulta de Viagem Por África não é muito lisonjeiro. Na opinião de Theroux, que conheceu e viveu em África no estertor da presença colonial, o continente está muito pior do que estava há 40 anos, principalmente em termos de infra-estruturas e condições mínimas de sobrevivência, e isso é sobretudo penoso para as populações locais, que são prisioneiras de um ciclo de improdutividade e subdesenvolvimento. As cidades são particularmente castigadas, e é no mundo rural que Theroux vê, apesar de tudo, alguma felicidade e alguma esperança para o futuro. Theroux é muito crítico das ONGs, da economia dos doadores, que traz dinheiro para países pobres, não para os desenvolver, mas para o colocar nas mãos erradas. Mas, lá está, o que é delicioso em Theroux é nunca termos a certeza se essa opinião não é apenas motivada pelo despeito de os funcionários das ONGs sempre se recusarem a dar-lhe boleias nos seus 4x4 brancos e poderosos.

Ao longo desta viagem, Theroux cruza dez países: Egipto (aproveitei para fazer um refresh da minha ida ao país, até porque no livro são mencionados muitos dos lugares que eu visitei), Sudão, Etiópia, Quénia (acho que é o país mais maltratado pelo autor, um retrato verdadeiramente desolador daquele que é, para muitos turistas, o paraíso dos safaris), Uganda, Tanzânia, Malawi, Moçambique, Zimbabué e África do Sul. Claro que me interessaram particularmente os dois capítulos dedicados a Moçambique (Theroux esteve no país em dois momentos distintos, primeiro quando desceu o Zambeze e foi até à Beira e daí para o Zimbabué, e depois uma visita a Maputo a partir da África do Sul). O retrato não é famoso, mas apesar de tudo podia ser pior. Curiosamente é dos trechos do livro onde há mais referência aos colonizadores do passado, ou seja, a nós os portugueses. E numa nota afectiva, refiro que Theroux considera estação de caminhos de ferro de Maputo, a mais bela de todas em África.

Apesar de os livros de Paul Theroux não primarem exactamente pelo pitoresco, há trechos em que não conseguimos deixar de sentir uma enorme vontade de estar lá, a viver esses momentos com ele, seja a viajar de comboio pela África do Sul, seja a descer o Zambeze numa canoa, seja a passar uma noite do desértico sul da Etiópia, a descascar batatas para o jantar.

Uma nota final para dizer que o livro está muito bem traduzido e que o texto está tão bem editado que muitas vezes nos esquecemos de que estamos a ler uma tradução. A nota negativa, na minha opinião, vai para a capa desinspirada, feita de banalidades que o próprio livro recusa, e para a tradução do título, que é demasiado funcionalista para despertar interesse. Só a título comparativo, deixo aqui uma das capas do livro, que foi usada, creio, tanto em edições inglesas como americanas, e que é daquelas capas que um tipo vê num escaparate da livraria e fazem logo ter vontade de agarrar no livro e de o trazer para casa.