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os budas
rosas
innersmile
Aproveitei o domingo de sol para ir, finamente, conhecer o Buddha Eden, um jardim mandado construir por Joe Berardo, ali para ao pé do Bombarral, que tem a particularidade de, num espaço enorme de 35 hectares, conter centenas de figuras de divindades e outros ícones pertencentes sobretudo às religiões e culturas orientais. É um festival de mármore e granito e terracota que se espalha por diversos enquadramentos: há um lago, há prados, há caminhos do bosque, há santuários. E há, por todo o lado, centenas e centenas de estátuas. De acordo com as intenções do comendador, a ideia era homenagear os budas de Bamyan destruídos pelos talibãs do Afeganistão, erigindo um Jardim da Paz que promovesse a tranquilidade e a espiritualidade, a harmonia e a concórdia. So much para a tranquilidade, que na tarde de ontem eram tantos os milhares de visitantes que dificilmente se conseguia ter um momento a sós com um dos budas, consequência, suponho, do facto de o acesso ao parque ser gratuito. E claro que às pessoas não lhes basta desfrutarem do local e tirarem umas fotos para mais tarde recordar, têm de literalmente se montarem em cima das estátuas, do que resultava uma quantidade assinalável dos frágeis soldados de terracota já desprovidos de várias partes do corpo.

Devo dizer que o jardim me fez crescer a consideração pela figura de Joe Berardo. Não por causa do altruismo, pois todos sabemos que há nestas coisas uma dose muito razoável de vontade de projecção pessoal (seja orientada para o negócio, seja apenas por aspiração à eternidade), mas muito por causa de algum visionarismo que é próprio uma obra deste vulto, mas sobretudo pela grandeza do empreendimento. Claro que, como dizia o poeta, "Deus quer, o Homem sonha e a obra nasce", mas estamos muito habituados em Portugal a que as necessidades de projecção de ego se satisfaçam com umas rotundas pequeninas decoradas com uns monumentos pífios. O que impressiona no Buddha Eden é a grandeza da coisa. É um tipo ter uma ideia, e a seguir disponibilizar os meios e os recursos necessários para a tornar ainda maior do que aquilo que sonhou.

Mas há mais. Há pelo menos dois elementos que marcam artisticamente este projecto, e o tornam coerente com a vocação de coleccionador de arte contemporânea, cuja colecção deu origem ao Museu Berardo. Uma delas é, naturalmente, a desmesura. Há uma concentração tão grande de figuras que, às tantas, é como se elas criassem uma energia própria, não apenas estabelecendo diálogos com os visitantes, como entre elas próprias. Ou seja, a partir de certa altura começa a inquietar-nos a possibilidade de haver um sentido naquilo tudo, uma imanência, que não é inteiramente perceptível para o visitante. As estátuas não são simples objectos de decoração, e o próprio conceito do parque não é meramente decorativo. E esta falta de vocação para o decorativo é acentuada por outro aspecto muito forte, que é a descontexualização. O tema do parque é completamente descontextualizado para o visitante. Não apenas porque diz respeito a culturas e religiões que nos são totalmente alienígenas, mas também porque não há quaisquer elementos identificativos ou referenciadores. O visitante passeia-se pelo jardim como se estivesse num lugar estranho, quase num outro país. Este sentimento de deslocação, de contacto com o desconhecido, acentua e dá mais intensidade à tal energia imanente que resulta da profusão. Em suma, o visitante sente-se deslocado, e obrigado a confrontar-se com alguma coisa de que não conhece o sentido. É uma experiência fantástica, que nos inquieta e perturba, mas que sobretudo nos interroga e, desse modo, nos transcende. Lembrei-me muito da exposição do Juan Muñoz que vi há um ano e pouco em Serralves, porque neste Buddha Eden há também qualquer coisa que tem a ver com o espaço e com uma certa sensação de estranheza, e que fazem com que a arte seja muito mais uma coisa que se sente e que se experimenta, que se vive, do que propriamente que se desfrute ou aprecie. Alguma coisa que vai directamente ao âmago da nossa mente, ou do nosso espírito, quase sem passar pela mediação dos sentidos, apesar de ser por eles que a recebemos.