March 6th, 2010

ghostrain

felicidade

«Devido às luzes fortes do pátio da estação, as pessoas deixavam-se atrair para o local, onde se sentavam a conversar. Um enorme grupo de crianças jogava à bola sob as luzes. Não era propriamente um jogo de futebol, mas era um jogo empenhado, com gargalhadas e gritos, que me chamou a atenção. África estava cheia de crianças escanzeladas e cheias de energia, que guinchavam enquanto brincavam, e a brincadeira estava normalmente relacionada com chutos e uma bola. Estas crianças não tinham uma bola redonda de borracha, mas uma bola de trapos toda desengonçada. O campo não era plano, nem macio – era uma sucessão pedregosa de pilhas de lixo e buracos. As crianças brincavam descalças, umas vinte ou mais, sem formarem equipas, mas todos à uma.
Ao vê-las brincar e chamar-se umas às outras nesta noite quente, erguendo nuvens de pó sob as luzes do pátio da estação, eu senti-me impressionado pelo esforço que investiam e encorajado pela sua alegria. O campo de jogos era um baldio, parte do qual se encontrava às escuras. As crianças entravam e saíam das sombras guinchando. Pouco lhes importava a escuridão, pouco lhes importava o campo pedregoso, ou a bola a desmanchar-se. Estas crianças brincavam e riam-se na que era, sem sombra de dúvida, uma das mais desesperadas províncias de um país semiabandonado. Mesmo depois de ter soado o apito do motor e de termos começado a afastar-nos de Mwanza, eu continuei a ouvir-lhes as gargalhadas de sino, e foi então que percebi por que motivo me sentira tão fascinado por aquela felicidade, que me fizera sentir tão só.»


- Paul Theroux, Viagem por África, Quetzal (tradução de Maria José Figueiredo)