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shutter island
rosas
innersmile
É verdade que Shutter Island não está ao nível das grandes obras de Martin Scorsese, mas ainda assim é sempre um luxo visionar os filmes do realizador. Faltam, se calhar, aquelas personagens cheias de abismos profundos, homens transtornados pela vida à procura de redenção, uma marca humana intensa em que a fraqueza e o desamparo eram a própria ideia de trascendência. Mas o cinema de Scorsese continua a ter uma ambição de ser maior, a ambição de nos propor, em cada filme, uma experiência que seja capaz de nos arrebatar, de fazer esquecer o mundo lá fora enquanto nos ajuda a percebê-lo melhor. O modo como Scorsese filma, a construção dos planos, as sequências, os movimentos de camara, a forma como a fotografia e o som nos envolvem, tudo é carregado de uma espécie de energia emocional quase electrizante. Digamos, em suma, que ver um filme de Scorsese provoca sempre um certo frisson, uma daquelas sensações quase arrepiantes, em que ficamos com pele de galinha.

Shutter Island faz-me lembrar um outro filme de Scorsese, Cape Fear, que também explora o medo e a paranóia, embora Cape Fear, porque abordava o medo em estado puro, era um filme mais inquietante. Muito do gozo de ver Shutter Island passa pela maneira como o argumento se vai desenrolando, como o filme nos vai dando as peças de um puzzle que, uma vez completo, nos devolve uma imagem diferente da que vinha na tampa da caixa. Por isso não faz muito sentido estar aqui a falar da história, não tanto pelo efeito spoiler, mas para preservar aos possiveis espectadores o prazer de serem eles próprios a colocar as peças do puzzle nos sítios certos. Ao contrário do que acontece, por exemplo, nos filmes do M. Night Shyamalan, de que gosto muito, o que é entusiasmante no enredo de Shutter Island é o facto de não haver uma verdade escondida, não há um mistério, digamos assim, que explique e dê sentido às coisas. No filme de Scorsese tudo se passa bem diante dos nossos olhos, e fica claro, desde cedo na narrativa, que a chave do filme reside na própria personagem.

Mas mais do que as elaborações do whodunnit, o que seduz no filme é a mistura de energia e sumptuosidade. O cinema de Scorsese é sumptuoso, não por causa dos meios (que concerteza não lhe faltarão), mas pela forma como o realizador os organiza, como cada plano está saturado de informação, e toda ela intencional, dirigida ao espectador. Shutter Island é, por outro lado, o quarto filme seguido que Scorsese faz com Leonardo DiCaprio, e convém não esquecer que foi com Scorsese, com Gangs of New York e sobretudo com The Aviator, que DiCaprio deu o salto de heartthrob adolescente para estrela de cinema para pessoas crescidas.
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