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Suponho que seja um sinal da minha decadência o facto de a maior parte das pessoas da minha família e minhas amigas, já nem se darem ao esforço de me dar os parabéns, quanto mais oferecerem-me uma prenda de anos. Este ano houve exactamente duas pessoas que me ofereceram presentes de aniversário. Tirando o facto de subjectivamente me parecer que eu mereceria muito mais, mesmo tentando ser imparcial e objectivo parece-me pouco. O que vale, nem tudo é mau, é que cada uma dessas pessoas me ofereceu dois presentes, o que, apesar de tudo, sempre eleva a média. E uma dessas pessoas foi o Zé, que me ofereceu dois livros do D. H. Lawrence. Eram livros pequeninos? Eram. Estavam em saldos? Estavam. Mas deixá-lo, mesmo assim valeram por metade do meu aniversário. E como eram mesmo pequeninos, já os li a ambos, razão porque este texto deixa de ser sobre os meus queixumes e passa a ser sobre literatura. Eis como, no mesmo parágrafo, e entre duas orações, se passa do sórdido ao sublime.

A Assírio & Alvim teve durante muito tempo, não sei se tem ainda, uma colecção de livros breves, a Gato Maltês, que era uma delícia: no tamanho dos livros, muito rápidos e portáteis, no preço, enfim, e na qualidade dos textos. Acho que foi em livros desta colecção que li pela primeira vez em português o Walt Whitman, a Emily Dickinson ou essa aventura fantástica que é A Canção de Amor de J. Alfred Prufrock, do T. S. Elliot (escrevo de cor: "Let us go then, you and I / When the evening is spread out against the sky / Like a patient etherised upon a table"). Com estes dois que o Zé me ofereceu aumenta o número de volumes que tenho da colecção e neste momento estou com pena de não os ter todos. Ah, foi também nesta colecção que eu li pela primeira vez os versos de Santa Teresa de Ávila. Uma mina, como se vê.

O Oficial Prussiano e A Princesa são dois contos onde podemos reconhecer, não sei se os temas, mas pelo menos o universo ficcional que habitualmente se atribui a D. H. Lawrence, pelo menos a avaliar pelo famoso romance O Amante de Lady Chaterley que é, tanto quanto me estou a lembrar, a única obra que eu tinha lido do autor. A tensão e o conflito entre a convenção e a pulsão, entre a norma e o desejo, enfim entre o espírito e o corpo. Em O Oficial Prussiano assistimos ao duelo, mortal, entre um oficial do exército prussiano e a sua ordenança, em que as complexas relações de poder entre senhor e servo são fortemente marcadas por um fremente desejo erótico. Não custa ver neste conto inscrita alguma da iconografia que marcaria o universo do sado-masoquismo, sobretudo na sua vertente de dominação, e nomeadamente a de pendor mais homoerótico. É um conto muito curto, com momentos narrativos muito marcados, e onde são evidentes as caracteristicas da escrita de D.H. Lawrence, nomeadamente a sua capacidade de criar uma atmosfera muito erótica.

A Princesa, um conto com um pouco mais de respiração, relata-nos a história de Dollie Urquhart, criada pelo pai para ser uma eterna virgem adolescente. Num passeio por um rancho no Novo México, a princesa cede à curiosidade de conhecer os prazeres mais carnais da vida, para, logo de seguida, e com receio da perturbação que eles lhe possam trazer, os renegar. A coisa acaba mal, sobretudo para o homem que a guiou nessa descoberta, que entende a recusa da princesa como uma rejeição baseada na superioridade de classe. O universo temático, como se vê, mantém-se, mas este é, de certo modo, uma narrativa mais depurada do que a do oficial prussiano (ainda que possa não ser tão excitante) e com um fôlego mais romanesco, mais próximo da novela.

Por causa da minha provecta idade (voltamos ao sórdido), a minha iniciação à sexualidade na literatura foi ainda muito marcada pelos clássicos do género, e por isso li O Amante de LC muito cedo, no tempo das iniciações juvenis. Por incrível que pareça, em finais dos anos setenta do século passado, livros como o de Lawrence conservavam ainda uma certa áura de escândalo, talvez por estarmos ainda muito dominados (pudera, ainda agora...) pelo puritanismo salazarista. Soube-me muito bem retomar agora o contacto com D. H. Lawrence, lendo-o de uma perspectiva puramente literária, mas aproveitando bem mais todas as ressonâncias das suas histórias de desejos transtornantes.