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looking for eric
rosas
innersmile
Looking For Eric é realizado por Ken Loach, um dos nomes que fixaram no cinema inglês o realismo com forte pendor social. Apesar do género não ser muito das graças do tipo de programação das salas multiplex dos centros comerciais, tem sido mais ou menos possível seguir a carreira do realizador, e isso permite-nos olhar para este filme com uma nota de surpresa. Apesar de ter inscritas as marcas do género (melodramas passados em ambiente de classe trabalhadora, onde os dramas pessoais se matizam com a luta pela sobrevivência económica), há neste filme, por um lado, um efeito de comédia que nalguns momentos é muito eficaz, e, por outro, uma explícita vocação de parábola, pela qual o realismo tem forçosamente de ceder espaço à fantasia.

O Eric do título são dois. Eric Bishop, carteiro de profissão, em momento de aguda crise pessoal, arrisca-se a perder o controlo da família e do emprego por não se conseguir reconciliar com algumas das opções, nomeadamente emocionais, que fez na vida, e porque o seu núcleo familiar está ameaçado pelas ligações a um gang de mafiosos locais. Nas suas horas de maior aflição, Eric volta-se para o seu herói à procura de consolo e conselho, e cujo seja o famoso jogador francês Eric Cantona, presente nas paredes do quarto de Bishop na forma de um poster gigantesco. Bem, isto até ao dia em que Cantona lui-même aparece no quarto, e os dois Erics começam uma profícua colaboração no sentido de puxar para cima a vida de Bishop, por entre partilha de ganzas, cervejas, rondas de entrega de correio, e solos de trompete.

Como disse, este toque de irrealismo funciona como parábola acerca dos benefícios da amizade e de como só conseguimos realmente progredir na vida com a ajuda dos outros, nomeadamente dos amigos e da família. O argumento do filme esforça-se, com gozo evidente, por trazer para a vida as máximas aplicáveis ao futebol, e muita da eficácia do filme vive indubitavelmente da presença em ecrã de Cantona, num registo sóbrio mas cheio de um humor auto-dirigido, ou seja um herói, ele que foi considerado o melhor jogador de sempre da história do Manchester United, para não ser levado demasiado a sério.

Mas se é verdade que a presença de Eric Cantona é o que dá sentido ao filme, nunca o protagonismo é roubado ao verdadeiro herói de serviço, e o filme nunca deixa de existir para, e em função de Eric Bishop. E esta capacidade de nunca deixar Bishop empalidecer na presença de Cantona deve-se muito ao trabalho do actor Steve Evets, que está praticamente sempre em cena e nunca deixa cair, nem o filme nem a adesão do espectador à sua história extraordinária de homem comum.
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