February 20th, 2010

rosas

hannah e martin



Acordei hoje bem cedinho porque queria acabar de ler o livro que tenho estado a ler. Foi mais uma semana complicada, com a minha mãe doente e internada no hospital, com uma pneumonia, e eu a ter de me dividir entre o apoio à minha mãe, ao meu pai, e, claro, o trabalho, que me absorve dez horas por dia. E relacionadas com os meus pais há outras preocupações muito sérias, que me tiram completamente o sossego. Ou seja, nem tempo nem cabeça, e sobretudo, nem eu, que me começo a ressentir de estar sempre muito ocupado e aflito, e começo a ficar um bocado à nora. Mas enough whining.

O livro que acabei de ler é um ensaio biográfico, da autoria de Elzbieta Ettinger, que trata do relacionamento entre Hannah Arendt e Martin Heidegger. Curiosamente está em cena no Teatro Aberto, em Lisboa, Hannah e Martin, uma peça com o mesmo tema, que eu gostava muito de ver, até porque é de um autor diferente do livro, mas que vai ser mesmo impossível.

Arendt e Heidegger conheceram-se na década de 20, ele professor e ela aluna, e tornaram-se amantes. Uma relação desigual, feita de uma certa necessidade de adulação por parte dele, a que Arendt correspondia, por amor, mas também por uma genuína admiração pela dimensão da filosofia de Heidegger. Com o surgimento do nazismo, no início dos anos 30, Heidegger torna-se reitor da universidade, inscreve-se no partido nazi, e tem comportamentos anti-semitas. Não prescinde da amizade de Arendt, mas torna-a mais discreta. Hannah, perturbada pelo relacionamento e fustigada pela sua condição de judia, acaba por sair da Alemanha para um exílio que duraria até ao fim dos seus dias.

O relacionamento seria retomado já depois do fim da segunda guerra, prolongando-se até à morte de ambos, em meados da década de setenta, durante um período marcado pelas acusações de que Heidegger foi alvo de colaboração com o nazismo, e das quais nunca se retratou, pelo contrário, tentando sempre negá-lo e apresentando-se como mais uma vítima. Sempre um relacionamento muito difícil e complexo, com aproximações e distanciamentos, marcado pelos amuos e pelas tentativas de manipulação por parte de Heidegger, e, por parte de Arendt, pela necessidade de um certo afastamento que desse alguma tranquilidade emocional, mas também com empenho na reabilitação política de Heidegger e na divulgação das suas obras.

Mas a história desta relação era verdadeiramente um quadrado, dado que duas outras personagens a marcaram decisivamente. Uma delas foi Elfried, a mulher de Heidegger, a quem Arendt sempre acusou de ser a verdadeira instigadora da ligação do marido ao partido nazi. A outra foi o filósofo Karl Jaspers, antigo mentor de Heidegger, e que nunca lhe perdoou não só a ligação ao nazismo, mas sobretudo o facto de nunca a assumir claramente, retratando-se. Um dos aspectos mais interessantes do livro tem precisamente a ver com o modo de funcionamento do triângulo que, enquanto foram vivos, se estabeleceu entre os três, e em que Arendt foi o pivot, dilacerada por sentimentos intensos e contraditórios que a ligaram a ambos os homens.

Trata-se de uma história fascinante, dada a dimensão, quer dos protagonistas, quer dos dilemas em causa (pessoais, emocionais, políticos, morais, enfim), e que a autora entrega de forma muito directa, num texto conciso, sempre muito straight to the point, e mostrando capacidade de perceber a complexidade da história e dos seus protagonistas, mas também a habilidade de nunca se deixar envolver por ela.