February 15th, 2010

rosas

precious

Apesar do hype, Precious mantém uma certa pureza do cinema indie. Realizado por Lee Daniels, o filme conquistou as plateias dos festivais de Sundance e de Cannes,e as boas graças da Oprah que apoiou a sua divulgação, dando-lhe o impacto popular que o filme indubitavelmente merece. Trata-se da história de uma adolescente do Harlem, iliterata, obesa, vítima de abusos e maus-tratos, com uma segunda gravidez, sendo que ambas foram produto de violações perpetradas pelo próprio pai, com uma filha que sofre de síndroma de Down, e que descobre que o pai, que entretanto morre, lhe transmitiu o vírus da sida. Caramba, isto dito assim quase parece que uma tão grande acumulação de azares não pode resultar bem, mas a verdade é que o filme consegue evitar a lamechice, e, mais, contextualizar essa série de azares como produto da vida do gueto, o que dá credibilidade e sustentação ao filme.

Mas para além da narrativa, o grande factor de sucesso do filme repousa, na minha opinião, nos actores. Com um cast muito pop que inclui a Mariah Carey (de buço) e o Lenny Krevitz, ambos excelentes, os grandes trunfos do filme são as duas protagonistas. Mo'Nique desempenha o papel da mãe abusadora e cruel, e é convincente ao ponto da perturbação. Mas é graças a Gabourey Sidibe que Precious nos toca tanto. Mercê, sem dúvida, de uma óptima direcção de actores, Gabourey Sidibe compõe uma personagem toda virada para dentro, de onde não parece soltar-se, como um buraco negro que nem deixa escapar a luz, a mínima emoção, mas que as vive todas por dentro, alienado-se em pensamentos de felicidade (estrelas pop, jovens brancas bonitas, rapazes galanteadores) sempre que a vida se torna insuportável. É essa resiliência extrema, o apetite voraz que tem pela vida e que se esconde dentro de uma impassibilidade toda feita de defesa e auto-protecção, a capacidade de suportar o limite do sofrimento sem ceder ao enquistamento da alma, que nos são dados através de uma composição rigorosa e segura, e que nos confrangem e tornam impossível não sairmos do cinema a amar a Precious.